BARBARA CARTLAND

A mais famosa e perfeita autora de romances histricos, com 350 milhes de livros vendidos em todo o mundo.

O Doce Aroma do Jasmim

Movendo-se com cuidado, o duque saltou a perigosa distncia que o separava da prxima sacada e entrou no quarto vizinho. Andando silenciosamente, tentou chegar 
porta sem perturbar o sono do hspede que ocupava aquele aposento.

Subitamente, porm, a porta se abriu, dando passagem a lady Branston, que, com um candelabro aceso na mo e um ar de grande espanto, perguntou escandalizada:

"Alteza, o que faz  uma da manh no quarto de minha sobrinha?"

BARBARA CARTLAND

Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.
Ttulo original: The Love Puzzle Copyright: Barbara Cartland 1986

Traduo: Erclia Magalhes Costa

Copyright para a lngua portuguesa: 1987

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

Av. Brigadeiro Faria Lima n. 2.000 - 3. andar

CEP 01452 - So Paulo - SP - Brasil

Caixa Postal 2372

Esta obra foi composta na Artestilo Ltda. e impressa na Editora Parma Ltda.
Digitalizao e reviso

Ftima Toms

NOTA DA AUTORA

Nesta histria o duque procura o Velocino de Ouro.

Na lenda grega, faso e um grupo de heris, conhecidos como Argonautas, partem em busca do Velocino de Ouro, que consistia na pele de um carneiro que fora sacrificado 
por Phrixus e pendurado no bosque de Ares, sendo guardado permanentemente por um drago.

Depois de muitas aventuras e de superar difceis obstculos, Jaso consegue pegar o Velocino de Ouro.

Em nossos dias, "procurar o Velocino de Ouro" representa o esforo do homem em tentar conquistar o impossvel.
CAPTULO I

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- Isso  simplesmente ridculo! - gritou lady Lucy Branston. - No posso imaginar coisa mais absurda e que possa desgostar mais o duque do que ter em sua festa uma 
jovem tola e imatura, de dezoito anos apenas!

- No vejo razo para voc dizer que Katerina  uma jovem tola - retrucou lorde Branston friamente. - Meu cunhado e minha irm eram muito inteligentes.

Com voz firme, ele prosseguiu:

- O fato de eles no terem muito dinheiro e de morarem em outro pas no significa que sejam desprovidos de crebro.

O modo como ele falou fez lady Branston ver que fora longe demais. Era melhor adular o marido e lev-lo a fazer quase tudo o que ela quisesse. Ao mesmo tempo, ele 
tinha muito orgulho de sua famlia. Portanto, no era boa estratgia tentar menosprezar a sobrinha, pois, como resultado, s conseguiria que lorde Branston ficasse 
mais irritado e se mostrasse mais obstinado.

- Acontece que j falei com Lyndbrooke - continuou lorde Branston. - Ele achou tima ideia levarmos Katerina conosco na sexta-feira. Afinal, a manso do duque  
to grande quanto um quartel, e no ser problema acomodar mais uma jovem.

Lady Branston apertou os lbios e caminhou impacientemente pelo quarto, as anquinhas balanando com seus movimentos agitados.

- Muito bem, Arthur. Se esta  sua deciso final, no adianta

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mais falarmos no assunto. S espero que se responsabilize por sua sobrinha.

Ela se calou por um instante e olhou demoradamente para o marido.

- Cuide de que ningum, entre os amigos do duque, se irrite com a presena de uma garota completamente ignorante e sem traquejo social. A meu ver, ela tambm se 
sentir como um peixe fora d'gua.

Aps dizer isso, saiu do quarto. Lorde Branston foi para perto da lareira e suspirou. Ele j devia ter previsto que a presena de Katerina naquela casa aborreceria 
a esposa.

"Mas o que mais eu poderia fazer pela pobre criana?"

Assim que soube que sua nica irm e o marido haviam morrido num acidente de trem, na Frana, ele cruzara o canal da Mancha e fora at a casa onde eles haviam morado, 
perto de Amiens.

Era uma casa pequena, mas confortvel e muito bem decorada. L, ele encontrou a sobrinha, chocada e confusa, pois, de repente, vira-se sozinha e desamparada.

- Papai e mame haviam ido a Paris para ficar apenas dois dias - explicou a jovem. - Papai ia ver um negociante de arte que estava interessado no ltimo quadro que 
ele pintara.

Katerina era uma jovem de rara beleza, e, apesar de tamanha tragdia, demonstrava autocontrole excepcional.

O tio lhe disse de modo caloroso que cuidaria dela e que iria lev-la para a Inglaterra.

A jovem, que parecia muito sensata, ficou muito agradecida com o oferecimento. Lorde Branston tomou todas as providncias para a sobrinha embarcar para a Inglaterra 
dias depois, devidamente acompanhada de uma chaperon.

Katerina fez as malas, levando consigo alguns dos objetos mais queridos que haviam pertencido aos seus pais.

Quando se viu sozinho, lorde Branston pensou no que a esposa iria dizer sobre a deciso que ele tomara.

Com mais de cinquenta anos, lorde Branston casara-se pela

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segunda vez com uma atraente viva dezessete anos mais jovem do que ele. Ela o cativara e o deixara apaixonado. Lucy vinha de uma famlia muito boa, e os dois vivos 
no hesitaram em se consolarem mutuamente.

S depois do casamento foi que lorde Branston percebeu que Lucy no se sentia nada infeliz por ter perdido o primeiro marido. Na verdade, parecia at feliz por ver-se 
livre dele.

Arthur Branston, ao contrrio, havia sentido profundamente a morte da primeira esposa. Ele a amava com ardor, apesar de ela no ter podido lhe dar os filhos que 
ele tanto desejava.

Lucy, entretanto, s queria estar com os distintos e importantes amigos do marido e adorava as recepes no Palcio de Buckingham. Tambm apreciava muitssimo receber 
em sua manso de Brook Street e em seu maravilhoso solar no campo.

No ignorava que o maior desejo do marido era ter um herdeiro. Pretendia dar-lhe um filho, mas antes queria reinar nos sales e ter muito sucesso como mulher de 
grande beleza. Queria tambm ser conhecida como a "espirituosa lady Branston".

Entretanto, aconteceu algo que ela no esperava e que jamais lhe passara pela cabea: ela se apaixonou.

Assim que viu o duque de Lyndbrooke, achou que devia t-lo escolhido para seu segundo marido. O duque era o "prncipe encantado" de seus sonhos, desde garota. No 
tinha importncia que ele fosse mais novo do que ela.

O duque, porm, parecia no ter inteno de se casar to cedo, apesar de seus parentes o pressionarem para arranjar uma esposa.

J que no podia se casar com ele, as intenes de Lucy eram mais do que bvias. Durante os anos de viuvez, aprendera os mais variados ardis, at transform-los 
na mais fina das artes, e em pouco tempo o duque sucumbira a seus encantos.

Antes de se casar com lorde Branston, Lucy no dispunha de muitos recursos, e contava apenas com sua beleza. Agora, porm, o marido era muito generoso no que dizia 
respeito a roupas e jias.

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Lady Branston confiava em que, estando toda enfeitada e reluzente de jias, mais parecendo uma rvore de Natal, homem algum poderia resistir a seus encantos; o duque 
no seria uma exceo. Ao mesmo tempo, seria preciso estar preparada para enfrentar um grande nmero de rivais.

A alta sociedade - liderada pelo prncipe de Gales - gostava de diverso, apesar da melancolia que reinava no Castelo de Windsor.

No havia mulher nessa sociedade que no se orgulhasse de ser pelo menos notada pelo duque. Mas Lucy confiava nos seus atrativos.

O que menos desejava no momento, entretanto, era ter que se comportar como chaperon de uma jovenzinha tola que certamente ficaria grudada nela como um ramo de hera.

Chegando ao seu quarto, Lucy bateu os ps, furiosa, e a ira alterou-lhe o lindo rosto. Olhando-se no espelho, assustou-se. No devia se entregar a esses acessos 
de fria, que acabariam por formar sulcos em sua pele delicada.

Com um esforo sobre-humano, obrigou-se a sentar-se calmamente em frente  penteadeira. Por alguns minutos, admirou a imagem refletida no espelho. Viu uma mulher 
lindssima. Seus cabelos, com uma tintura leve que ningum notava, refletiam o ouro do sol antes de mergulhar no poente. Seus olhos tinham o tom azul do Mediterrneo. 
Seus lbios, de forma perfeita, eram um convite ao beijo, como j haviam afirmado muitos homens.

"Por que devo me aborrecer, tendo esta aparncia?"

Entretanto, a presena de uma debutante ao seu lado seria um estorvo. S em pensar na garota, sua vontade era de gritar.

No que a jovenzinha pudesse ser uma competidora, mas lady Branston queria ser a nica estrela no firmamento. Queria que o duque e todas as outras pessoas s pensassem 
nela e em toda a sua glria.

Depois que voltara da Frana, lorde Branston dissera  esposa que Katerina chegaria  manso dos Branston em trs ou quatro dias. Lucy no imaginara, a princpio, 
que o marido quisesse ficar com a sobrinha at ela se casar.

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- No seria melhor, querido Arthur - ela dissera -, se sua sobrinha ficasse no campo com uma governanta at que termine a temporada? Afinal, ela est de luto fechado, 
e no  correto ir nem mesmo a um ch, quanto mais a festas.

- Est enganada - replicara lorde Branston.

Lucy olhara para ele com uma indignao no olhar, e ele lhe explicara:

- Katerina me disse que seu pai e minha irm no aprovavam o luto. Na verdade, eles no acreditam na morte!

- O qu? Por Deus, o que quer ela dizer com isso?

- Como voc sabe, minha irm e o marido viveram na ndia assim que se casaram, e parece que se interessaram pelo budismo. Acreditam que ningum morre, mas vive eternamente.

- Nunca ouvi tanta tolice em minha vida. Como uma pessoa pode estar to fora da realidade para aceitar uma coisa dessas? J vi muitas pessoas mortas e bem mortas 
em um caixo, sendo enterradas!

Lorde Branston dera um suspiro.

- Acho que muitas pessoas no tm a sua opinio. Eu mesmo acredito que toda a nossa luta neste mundo para nos aperfeioarmos no pode ser perdida para sempre.

- No sei o que est falando. S no tenho vontade de ficar aqui ouvindo uma poro de tolices.

- Quer voc escute ou no, o fato  que, mesmo estando muito triste por no ter mais os pais a seu lado, Katerina tem certeza de que eles esto juntos e no querem 
que ela use luto. Minha sobrinha ir a festas, e ofereceremos muitas festas em nossa casa, como se nada tenha acontecido.

- Bem, o que posso dizer  que no acho natural uma jovem que diz amar os pais no estar pranteando sua perda.

- J acabei de explicar que, para ela, eles no esto mortos!
- disse ele irritado.

- A meu ver, a garota devia estar trancada em um hospcio! Observando a reao do marido, Lucy percebeu que cometera um erro. Ento, em voz suave, que sabia ser 
irresistvel, disse:

- Sinto muito, meu querido Arthur, pela perda de sua irm.

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Sei que a amava, mesmo tendo passado tanto tempo longe dela. Claro, temos que fazer tudo q que estiver ao nosso alcance pela sua pobre rf, Katerina.

- Que bom ouvi-la dizer isso, querida - disse lorde Branston, batendo de leve no ombro da esposa. - Conto com voc, querida, para arranjar roupas bem bonitas para 
minha sobrinha. Faa tudo para ela ter sucesso na sociedade.

Como um relmpago, passou pela cabea de Lucy que, quanto antes ela arranjasse um casamento para a jovem, melhor.

Quando Katerina chegou a Londres, Lucy j havia decidido o que comprar para a sobrinha do marido e a que lojas a levaria. O que ela no esperava era que Katerina 
fosse uma jovem lindssima.

Assim que ela entrou na manso, Lucy teve um choque, e seu lindo rosto ficou transtornado pelo cime e pela inveja. A sobrinha do marido era completamente diferente 
de tudo o que ela havia imaginado.

Lucy sabia que a irm de Arthur, a quem no conhecera, era considerada por todos uma mulher muito bonita, e que seu marido tambm havia sido um belo homem.

Achava ridculo o fato de Elizabeth jamais ter feito questo de brilhar no mundo social, preferindo casar-se com um homem sem fortuna e sem posio importante. Ela 
se apaixonara por Michael assim que o vira. De acordo com o que Lucy ouvia o marido dizer, a irm recusara diversos aristocratas que queriam cortej-la.

Michael Darley conhecera Elizabeth na casa de campo dos pais dela. Ele se hospedara em casa de um amigo, um par do reino, e o acompanhara a um jantar em Branston 
House, oferecido pelo pai de Elizabeth, antes do baile de abertura da temporada de caa. Michael era excelente cavaleiro, e havia vencido todas as corridas locais 
de obstculos e ponto a ponto.

Elizabeth tivera permisso de descer para jantar com os convidados, apesar de no ter ainda debutado.

Na noite do jantar, Elizabeth se vestira de modo simples e no usara jias, contrastando com as ladies de tiaras e muitas

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outras jias reluzentes e vestidos armados por crinolinas enormes, que lhes dificultavam sentar-se. Elizabeth parecia uma simples margarida entre uma profuso de 
orqudeas exticas.

Michael Darley ficou perdidamente apaixonado, e capturou tambm o corao da jovem Elizabeth. Durante seis meses, hospedou-se com frequncia na casa desse seu amigo 
que era par do reino.

O amigo de Michael sempre conseguia arranjar um modo de os dois apaixonados se encontrarem no bosque, quando saam para cavalgar. Foi a primeira vez que Elizabeth 
mentiu a seus pais.

Os dois tambm se encontravam em festas locais.

Foi uma verdadeira bomba para os pais de Elizabeth a notcia de que os dois queriam se casar. Lorde e lady Branston suplicaram  filha que no se precipitasse e 
fosse a Londres para a temporada, como j havia sido planejado.

Eles queriam que a filha fosse apresentada  rainha antes de pensar em se casar com Michael Darley ou qualquer outro homem.

Mas nada adiantou. Elizabeth estava apaixonada, e os pais, percebendo que no adiantava se opor, consentiram no noivado.

A felicidade dos noivos foi indescritvel. Depois de casados, os dois no tinham muito dinheiro, e viviam quase que apenas com a renda que Elizabeth recebia de seu 
pai. Mas nada importava, desde que estivessem juntos.

Viajaram pelo mundo, no fazendo questo de luxo nem de conforto e adorando a vida que levavam.

Michael tinha talento para a pintura, e mudou-se para a Frana com a esposa, pois naquele pas seria mais fcil viver de sua arte.

Ele gostava de pintar no novo estilo que comeava a ser conhecido como "impressionista", e os crticos no apreciavam esse tipo de trabalho. Ento, para poder sobreviver, 
passara a pintar quadros mais convencionais, que chamava de "ganhapo", pois vendiam bem.

Logo conseguiu o necessrio para dar  famlia algum conforto

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e at um certo luxo. Elizabeth podia comprar roupas caras, que a deixavam to linda como quando ele a conhecera.

Mesmo no sendo ricos, o casal vivia muito feliz. Em sua casa havia risos, a conversa era inteligente e os que a frequentavam eram pessoas diferentes, cheias de 
novas ideias.

Elizabeth e Michael economizavam o que podiam e todo ano visitavam uma parte do mundo que no conheciam.

Katerina foi levada  Grcia com apenas cinco anos de idade. Dois anos mais tarde, os trs foram para a Turquia, e no ano seguinte resolveram conhecer o Egito.

Nessas viagens, jamais fizeram questo de comidas caras e alojamentos de luxo. O que adoravam era conhecer lugares diferentes, outros costumes, ver outras paisagens. 
Gastando pouco, os trs viam muito mais lugares do que as pessoas que gastavam centenas de libras.

Depois de cada viagem, Michael tinha telas lindssimas para vender.

Logo depois de chegar a Londres, Katerina comprou algumas roupas, apesar de estar com as malas cheias. Trouxera muitos objetos que haviam pertencido  me, e do 
pai, tudo o que conseguira reunir: esboos, quadros, material de pintura.

- No sei o que pretende fazer com toda essa quinquilharia

- disse a tia com pouco-caso, ao ver o contedo dos males.

- Tio Arthur disse que eu poderia trazer o que quisesse

- respondeu Katerina.

- Voc no pode encher seu quarto com esse monte de lixo. Fique com o que for absolutamente necessrio e diga para os criados que levem um dos males com o restante 
para o sto. Voc sempre poder ir at l ver esses objetos, se no tiver coisa melhor para fazer.

Katerina ficou em silncio; no adiantava dizer nada. Mesmo antes de falar com ela, j percebera que sua presena provocara o antagonismo e o ressentimento da tia.

"Assim que eu arranjar um lugar onde ficar, devo deixar esta casa", pensou Katerina, desalentada.

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Mas no momento, de qualquer forma, teria que ser o mais retrada possvel. S esperava que os tios no a detestassem tanto quanto aparentavam.

Mas foi uma esperana v. Pelo menos por parte da tia. Assim que estivesse sozinha em seu quarto,  noite, ela iria conversar com seus pais, e encontraria uma soluo. 
No poderia suportar por muito tempo o dio da tia. No poderia manter a calma perto dela. Seus pais certamente a ajudariam. Ela no estava sozinha. S isso j tornava 
sua vinda a Londres mais tolervel. Tinha, porm, que se convencer que sua vida mudara completamente. Nunca mais teria a felicidade de viver ao lado de duas pessoas 
que se amavam e que a amavam to completamente.

"Tio Arthur  muito bondoso a seu modo, mas no h amor nesta casa enorme e assustadora", ela pensou.

Sentia que tudo naquela casa soava falso. O salo, com uma moblia austera, estofada de brocado carssimo, as flores cultivadas em estufas e arrumadas artisticamente 
em vasos de cristal finssimo, tudo era to diferente da sala de estar pequena e confortvel da sua casa na Frana! L, sua casa era enfeitada com flores silvestres 
que colhiam nos campos, ou com as que cultivavam no jardim.

Katerina tinha o prazer especial de arrumar as flores no vaso, pois seu pai costumava admir-las. Certa vez, ele quis pintar um arranjo de flores, dizendo que uma 
velha senhora lhe encomendara um quadro bem romntico, que a fizesse lembrar seu primeiro amor, um homem ardente. Juntos, ela e o pai riram muito da excentricidade 
da cliente.

O ateli do pai de Katerina ficava nos fundos da casa. Era um cmodo pequeno e recebia luz da face norte. Ali, o pintor tinha tranquilidade para dedicar-se a seus 
quadros e, assim, manter a casa e a famlia.

Agora Katerina se encontrava naquela casa luxuosa, e seria ingrata se no apreciasse os vestidos que a tia havia comprado para ela, mesmo reclamando do trabalho 
e das despesas.

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Ao ver a sobrinha provando os vestidos, o mau humor de Lucy era evidente. A certa altura, havia dito:

- No consigo entender por que voc no se parece com as outras debutantes.

Katerina se olhou no espelho para ver o que havia de diferente em sua aparncia. Precisava entender a exasperao da tia. De fato, ela era diferente. Lembrou-se 
da primeira festa a que comparecera, onde havia diversas debutantes, todas vestidas de branco. Eram, sem exceo, jovens encabuladas, quietas, que gostavam de ficar 
sentadas dando risadinhas entre si.

Por ter outra experincia de vida, pois viajara muito com os pais, Katerina conhecera pessoas de diferentes nacionalidades, conversava com personalidades importantes 
e no era, de modo algum, tmida.

Aprendera com o pai que todas as pessoas tinham alguma faceta interessante e se mostravam sensveis a alguma coisa que fizesse seu corao bater mais forte. O importante 
era descobrir as qualidades das pessoas e apreci-las.

O pai lhe dissera que descobrir que havia de interessante em cada ser humano era um trabalho rduo, mas fascinante, como o dos arquelogos egpcios, ou o trabalho 
dos administradores de museus na Grcia, que lutavam constantemente contra os vndalos que danificavam ou destruam as maravilhas do passado.

"S saberemos que algum, mesmo tendo a aparncia de um sapo gordo,  na verdade uma pessoa extraordinria, se tivermos a pacincia de escavar bem no fundo, dentro 
de seu corao e de sua alma", ensinara-lhe o pai.

Katerina gostava, pois, de descobrir pessoas. Atrs de uma mulher aparentemente desinteressante e insensvel, ela havia descoberto uma colecionadora de plantas raras; 
um vendedor de carne criava gatos persas, de plo macio e azulado, muito raros e desconhecidos na regio onde morava; em outra ocasio ficou sabendo que um poltico, 
considerado um homem corajoso, morria de medo de fantasmas.

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Assim, Katerina vivia fascinada com essa espcie de jogo que era conhecer as pessoas alm da aparncia exterior.

Quanto a tia Lucy, a jovem achava que ela parecia proteger-se atrs de uma armadura, e demonstrara detestar a sobrinha, a ponto de no querer v-la perto de si.

Mentalmente, ela conversava com o pai, e sabia que ele a compreendia. No restava dvida de que a tia no gostava dela por causa de sua aparncia.

Olhando-se no espelho, Katerina viu um rosto jovem, parecido, talvez, com o de uma criana. Seu pai costumava dizer que ela possua um "ar espiritual ligado". Muitas 
vezes ele tentara captar aquela espcie de aura que envolvia a filha e transferi-la para a tela, mas nunca tivera sucesso e sentia-se frustrado e zangava-se por 
no conseguir retratar o sentimento, mas apenas a imagem.

-  isso que os impressionistas tentam fazer - observara Katerina.

- Ento sou um mau impressionista - respondera o pai.
- Entretanto, no desistirei. Tentaremos outro dia, mas  difcil, muito difcil, em se tratando de voc, minha querida.

- Acho que o retrato est lindo.

- No o suficiente. Voc  linda, mas sua beleza vem do interior, como uma pintura chinesa que tem sempre um significado intrnseco que  to difcil captar como 
se fosse um fogoftuo ou uma estrela cadente.

- Agora est me fazendo sentir-me importante - dissera ela sorrindo.

- Voc  muito importante para mim, e um dia ser importante para o homem que vier a am-la, se ele notar que, como sua me, voc  uma pessoa nica, muito diferente 
das outras mulheres.

- Voc sabia que mame era uma pessoa especial quando a conheceu?

- Assim que a vi do outro lado da grande mesa de jantar, senti que meu corao abandonara o corpo. Sua me era adorvel, mas era muito mais do que isso. Aquele nosso 
encontro

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foi o de duas pessoas que estavam destinadas uma  outra desde o princpio dos tempos e jamais se separariam, nem neste mundo, nem no outro.

Era um amor assim que Katerina sonhava encontrar um dia.

Mas ali, na casa dos tios, um estranho pressentimento lhe dizia que, entre as pessoas que cercavam Lucy, jamais encontraria algum especial. No mesmo instante, censurou-se 
por estar fazendo julgamentos precipitados. Sua me sempre a aconselhara a refletir e a tentar compreender o ponto de vista dos outros. Elizabeth ensinara  filha 
que estamos neste mundo para crescer espiritualmente e desenvolver nossa personalidade. Quanto mais nos aprimoramos, mais descobrimos que h o que aprender e compreender. 
 uma aprendizagem excitante.

A me explicara tambm que nem todas as pessoas aprendem com a mesma rapidez, por isso  preciso ter pacincia. Essas pessoas precisam de nosso auxlio e do nosso 
exemplo.

Katerina aprendera isso desde muito cedo, e agora dizia a si mesma que estava sendo impaciente demais e crtica ao extremo. Ao mesmo tempo, receava no compreender 
a tia Lucy completamente. Nesse caso, teria que admitir o fracasso.

Tia Lucy fizera forte objeo a que Katerina fosse convidada para passar o fim de semana na manso do duque de Lyndbrooke. Ele havia planejado alguns dias de festa, 
muito tempo antes. Lucy esperava ansiosa por essa oportunidade. Ao sair s compras com a sobrinha, encomendara muitos vestidos para essa ocasio.

Katerina ouvira a tia dizer  vendedora que as atendia e que parecia conhecer Lucy muito bem:

- Preciso destes vestidos na prxima quinta-feira, pois iremos passar uns dias em Lynd, milady? Que excitante!

- Tenho certeza de que ser - respondera a tia com complacncia. - Como v, ser uma ocasio especial, e quero o melhor.

- Sim, claro, milady! Talvez possa se interessar por um novo modelo que acaba de chegar e que  exatamente da cor de seus olhos.

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Lucy comprara dois vestidos azuis e muitos outros. Katerina no pde deixar de pensar que ela precisava ficar pelo menos um ms em Lynd para usar aquele verdadeiro 
enxoval.

Todos os vestidos eram lindos. Eram providos de anquinhas, que j estavam h quatro anos em moda e substituam a crinolina. Os tecidos eram da mais fina qualidade, 
e tinham vindo da Frana.

Os vestidos de Katerina tambm eram muito bonitos. Ela gostara especialmente dos que no tinham excesso de enfeites e babados, nem eram exagerados como os da tia. 
Preferia os drapeados, como os que vira nas esttuas gregas, em Atenas, que haviam sobrevivido na pedra e que os vndalos e as intempries no haviam conseguido 
destruir.

Mais tarde, em seu quarto, Katerina ouviu, sem querer, a tia, zangada, protestar contra a ida da sobrinha a Lynd. Teve a exata impresso de que a ira de Lucy tinha 
algo a ver com o duque. At o ltimo momento ela tentara persuadir o marido a deixar a sobrinha em casa.

- Voc no percebe - dizia a tia - que o duque convidou seus amigos mais ntimos para passarem esses dias em Lynd? So todos mais ou menos da idade dele. Katerina 
nada tem em comum com essas pessoas.

Lorde Branston no respondeu, pelo simples fato de j ter ouvido aquele argumento antes. Alm disso, como todo homem mais velho, detestava ser contrariado, e estava 
determinado a agir como bem quisesse.

- Vou levar Katerina para Lynd - disse depois, com firmeza, pondo fim  discusso. - J conversei com Lyndbrooke sobre o assunto, e a esta altura no tenho dvidas 
de que ele j convidou pessoas mais jovens do que voc para o fim de semana em sua propriedade.

Katerina percebeu que aquilo fora quase um insulto para Lucy. Quando, mais tarde, ficou a ss com a tia, esta disse:

- Voc  uma garota de sorte por ter a oportunidade de ir a uma das mais encantadoras propriedades do pas. Espero que agradea por isso e no se torne uma pessoa 
desagradvel.

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- Farei o possvel, tia Lucy.

- Afaste-se do duque e no importune os amigos dele.

- Farei isso, tia Lucy.

- Seu tio ps na cabea que voc no pode ficar aqui sozinha enquanto vamos a Lynd, apesar de eu ter sugerido que h pelo menos meia dzia de parentes que ficariam 
de bom grado fazendo companhia a voc.

Sua irritao era evidente, e Katerina achou mais prudente no dizer nada.

- Ningum pode dizer - continuou a tia - que no fiz o melhor por voc. No h uma jovem de sua idade em toda Londres que tenha roupas melhores do que as suas. Se 
voc se revelar um fracasso, a culpa no ser minha.

- Estou muito feliz e fico-lhe agradecida pelos lindos vestidos, tia Lucy. E, se isso a alegra, ficaria at muito contente em no ir a Lynd.

- Seria timo se fizesse isso, mas seu tio j decidiu, e nada, a no ser um terremoto, o far mudar de ideia! Como j lhe disse, fiz o que pude. Se voc no se parece 
com uma debutante, tente, pelo menos, comportar-se como tal.

Ela lanou um olhar de raiva para Katerina e saiu do quarto, batendo a porta.

"No adianta. Como posso mudar minha aparncia, s para contentar minha tia", pensou Katerina.

Ela se levantou da cadeira onde estivera sentada e olhou-se no grande espelho colocado sobre a cornija da lareira. Viu sua imagem refletida entre vasos de Svres 
e um grande relgio Ormulu, vindo da Frana. Seus grandes olhos azuis-acinzentados pareciam dominar o rosto pequeno, em formato de corao. Seus cabelos eram to 
claros que o pai costumava compar-los aos primeiros raios plidos do sol ao amanhecer. Ele dizia tambm que s um artista poderia ter dado quela pele a alvura 
dos flocos de neve e aos lbios a cor da rosa almiscarada. Katerina costumava sorrir do modo potico como o pai se expressava. Outra coisa que ele sempre dizia era 
que a filha, sendo fruto

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de um amor to grande, s poderia ter uma beleza nada convencional.

Voltando ao passado, Katerina se lembrou de que vira certa vez uma tela sobre o cavalete onde o pai trabalhava; era o retrato de uma mulher de cabelos dourados e 
olhos azuis, tendo como fundo uma cortina de veludo tambm azul, ou seja, o tipo de pintura convencional que seu pai detestava. Era o retrato da esposa do cnsul 
holands, e fora encomendado pelo prprio cnsul. Depois de pronto, ficaria dependurado em uma parede numa casa cheia de luxo e ostentao.

Em seguida, o pai de Katerina recebera a encomenda de outro retrato: o da filha do prefeito. Novamente Michael fez o quadro, contrariando seus ideais.

-  sempre esse tipo comum: cabelos dourados, olhos azuis, pele rosada.

- Querido, no se aborrea - animara-o a esposa. - Este  o seu meio de vida. Graas a esses retratos, temos boa alimentao, e uma parte do que receber vai para 
o banco, para as nossas prximas frias. Aonde iremos desta vez?

- Gostaria de ir at a lua - respondera Michael -, mas, j que no  possvel, talvez possamos ir at Marrocos.

Me e filha deram gritos de alegria.

- Tenho vontade de pintar as montanhas Atlas. "Agora, suponho, jamais conhecerei as montanhas Atlas",

pensou Katerina, tristonha, com saudade dos pais.

Lanando mais um olhar  sua imagem refletida no espelho, ouviu o pai dizer, como se estivesse ali bem junto dela:

- "Um dia ir at as montanhas Atlas com o homem que ama."

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CAPTULO II

O duque de Lyndbrooke olhou ao redor do salo de recepo Devonshire House, achando que ia apreciar muito aquela festa.

O sr. Disraeli e o conde de Kimberley, ministro das Relaes Exteriores, j haviam chegado. Muitos outros estadistas com quem ele gostava de conversar tambm ali 
estavam, alm das mais lindas mulheres de Londres.

Quando ia escolher uma delas para ter com quem se distrair, o mordomo anunciou:

- O conde e a condessa de Calverton, alteza.

Se o duque no tivesse tanto autocontrole, demonstraria como ficara perturbado. Por um momento, ficou imvel.

Ento, vagarosamente, virou-se e olhou para a passagem toda ornamentada onde os convidados acabavam de surgir. No havia engano.

A duquesa de Devonshire cumprimentou Anastcia. Atrs desta achava-se o corpulento conde de Calverton, seu marido.

O duque de Lyndbrooke viu-se naquele instante de volta ao passado, dia em que vira Anastcia pela primeira vez. Isso acontecera quando ele estivera na Malsia, nas 
selvas, caando tigres. Quando voltara para Cingapura, conhecera Anastcia em uma festa, e a comparara a uma tigresa.

Anastcia era russa, e, nessa ocasio, ainda estava desolada pela perda recente do marido, um plantador de ch que morrera de um tipo de febre comum em algumas regies 
daquele pas.

Apesar de ter ficado viva h to pouco tempo, ela no estava de luto. No final daquela noite, quando ela pousara seus estranhos olhos verdes no duque, este ficara 
fascinado.

Naquela ocasio, ele era simplesmente Tristram Brooke, e

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explorava o mundo. No havia ainda herdado o ttulo de duque, nem a fortuna que agora possua. Seu pai, primo em primeiro grau do sexto duque de Lyndbrooke, no 
era rico e dava ao filho uma pequena penso anual.

Tristram passara dois anos servindo no regimento no qual toda a famlia servira. Abandonou o regimento porque achou a vida ali restrita demais.

Para tristeza dos pais, decidiu sair de casa e ir para o Oriente.

-  perda de tempo e dinheiro - esbravejara o pai.

- Prometo-lhe, meu pai, no esbanjar dinheiro. Porm, tenho que aproveitar para conhecer o mundo agora. Talvez no tenha outra chance de faz-lo.

Tanto o pai como o filho pensavam que o impedimento seria um possvel casamento. Naturalmente, ele acabaria pensando em ter uma esposa e filhos, e teria que arranjar 
um modo de poder mant-los. Sozinho, era mais fcil enfrentar o desconforto e arranjar o que comer. Alm disso, Tristram tinha um estranho e urgente desejo de ver 
certos lugares sobre os quais j havia lido e que o haviam emocionado, atraindo-o e excitando sua imaginao.

Ele no conseguia explicar o que sentira, mas no podia, da mesma forma, ignorar o impulso que o fazia desejar conhecer o mundo. Sentia necessidade de satisfazer 
essa curiosidade.

Havia passado algum tempo na ndia e sara dali to maravilhado que desejava voltar para rever aquele pas.

A Malsia era o prximo ponto em seu programa de viagens. Ao chegar l, no ficou desapontado.

A beleza da regio, com suas flores, e at mesmo os tigres  espreita nas florestas, que haviam matado inmeros trabalhadores, o haviam fascinado. Tudo na Malsia 
era completamente diferente do que conhecera at o momento.

Cingapura tambm era um lugar fascinante, com sua populao chinesa, a beleza das cidades  beira-mar e inmeras possibilidades de desenvolvimento.

Mas, depois que ele conheceu Anastcia, foi difcil pensar

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em qualquer outra coisa. Jamais encontrara uma mulher como ela.

Anastcia entrara na vida dele e o prendera com seus encantos, do mesmo modo como a vegetao pendente de cips, lianas e trepadeiras sufocava a vegetao na floresta. 
Ele pensou que seria impossvel escapar  magia daquela mulher.

Apaixonara-se perdidamente. Era a paixo tpica de um jovem cheio de ideais, que nunca se desiludira, e por isso no tinha receio de se entregar.

Acreditava ser correspondido. Entretanto, como nada tinha a oferecer  mulher amada, quando a pediu em casamento, ela simplesmente escarneceu dele.

- Como viveramos, mon cher?

Anastcia falava francs muito bem. Na Rssia, os aristocratas falavam francs fluentemente.

Tristram duvidava que ela tivesse alguma vez vivido entre a aristocracia russa, mas ela comportava-se como se o tivesse feito.

Apresentava-se como condessa; era improvvel que o fosse realmente. Havia, porm, na Rssia, milhares de condessas, e era impossvel verificar a veracidade de um 
ttulo.

- Case-se comigo, Anastcia! Seremos felizes juntos. Eu posso trabalhar para proporcionar-lhe tudo o que voc quiser dizia Tristram apaixonadamente.

- Voc acha mesmo que eu seria feliz vivendo em uma casa simples, no campo, contando cada penny e no podendo ao menos ir frequentemente a Londres para me divertir 
ou para dar festas e recepes aos amigos? Non, non, non, mon brave, no  isso o que pretendo ter na vida. Quero segurana, e isso significa muito dinheiro. Tambm 
desejo uma posio de grande importncia.

Tristram Brooke ficara em silncio. Nada tinha a oferecer alm de um velho solar no campo, que herdaria quando o pai morresse. Mesmo que eles fossem a Londres frequentemente, 
jamais poderiam frequentar os altos crculos sociais que tanto significavam para Anastcia.

Durante um ms, ambos tinham ficado em Cingapura, amando-se

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e vivendo momentos maravilhosos. Anastcia despertava nele a mais ardente paixo, mas jamais aparentava estar satisfeita.

Quando ela o deixou, seguindo para o Ceilo, ele fora para a ndia. Viajara bastante, sem conforto, de trem ou barco, sempre nas classes mais baratas que podia conseguir. 
Mas tudo lhe servira de grande experincia.

Todavia, a simples viso das mulheres, com seus sris vistosos e flores nos cabelos, e o cheiro penetrante e gostoso dos perfumes nos bazaars faziam-no lembrar-se 
saudosamente de Anastcia.

Durante suas viagens, por ser muito atraente, tivera inevitavelmente muitas mulheres. Alm disso, pertencendo a uma famlia muito distinta e conceituada, era sempre 
convidado pelo vice-rei ou o governador, bem como pelos regimentos de cada provncia britnica que visitava, a ficar uns dias com eles.

Fora na Babilnia que, ao ler um jornal ingls, deixado por um viajante comercial h algumas semanas, viera a ter conhecimento de duas mortes: a do duque de Lyndbrooke 
e tambm a de seu pai. Por alguns segundos, no pde acreditar no que estava lendo. Quando deixara a Inglaterra, o filho herdeiro do duque, um jovem robusto, estava 
na mais perfeita forma. Morrera, entretanto, em uma caada. Isso acontecera quando Tristram havia chegado  Malsia. O prximo herdeiro do ttulo seria seu pai, 
que tambm falecera.

O jornal dizia que os curadores e advogados da famlia procuravam por Tristram Brooke, que se encontrava viajando pelo exterior.

Tristram voltou para seu pas assim que pde, mas s conseguiu chegar  Inglaterra um ms mais tarde. L, foi informado de que se tornara o stimo duque de Lyndbrooke 
e um dos homens mais ricos do pas.

Sua casa ancestral, considerada uma obra-prima de Adam, era uma das mais lindas e requintadas j construdas na Inglaterra. O duque de Lyndbrooke era senhor de muitas 
terras e de propriedades espalhadas por diversas partes do pas.

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Por ter conhecido o lado difcil da vida, o novo duque no se envaideceu, nem se tornou presunoso ao receber um tratamento honroso, to diferente do modo como o 
tratavam no passado.

Quando no era possuidor de ttulo nem de fortuna, apesar de ser um homem bonito, as mes se empenhavam em afastar dele as filhas casadouras.

As mulheres casadas apenas se dignavam olh-lo, e at o admiravam por sua beleza e masculinidade, mas no se interessavam por um homem de bolsos vazios.

Agora tudo era diferente. O belo duque de Lyndbrooke era caado, perseguido, bajulado, assediado pelas mulheres como se fosse uma presa cobiada.

No havia dvida de que aquilo o divertia.

Entretanto, Anastcia lhe ensinara uma lio difcil de esquecer: para uma mulher, o dinheiro e a posio social significam muito mais do que o amor.

Assim, o duque fizera o firme propsito de nunca mais entregar seu corao a mulher alguma, sabendo que pouco valor tinha, comparado ao seu ttulo de nobreza.

Naquele momento, olhando outra vez para Anastcia, e se deixando dominar pelo mau humor, por estar sendo sentimental, ele disse a si mesmo que aquela mulher h muito 
havia matado os seus sonhos. Agora, estava se preparando para enfrentar o mundo de acordo com as regras que a sociedade ditava.

Felizmente, na posio em que se encontrava, esse mundo era, sem dvida, muito divertido e agradvel.

Decorridos cinco anos, aps ele ter recebido o ttulo de duque, achara confortvel ter sempre dezenas de criados prontos a servilo e orgulhava-se de saber que nos 
seus domnios sua palavra era lei.

Agora possua cavalos de raa, muitos deles campees nas corridas clssicas, seus estbulos estavam cheios dos melhores puros-sangues que era possvel obter.

Mas seus domnios precisavam de cuidados e organizao. Ele se sentia como um coronel comandando um regimento muito

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grande e elegante, o qual, entretanto, tinha que ser mantido sob o controle de um pulso de ao.

Ofereceram-lhe inmeras posies na corte. Por ser muito bonito, a rainha, apesar de estar de luto e chorar constantemente pela morte de seu querido Albert, queria 
o duque de Lyndbrooke sempre ao seu lado. Ele conseguiu evitar ser apanhado nessa armadilha, pedindo ao primeiro-ministro que no o forasse a assumir obrigaes 
que prejudicassem sua liberdade.

- Se exigirem muito de mim, abandono tudo e vou para o exterior. H muito o que conhecer neste vasto mundo, e posso viajar com mais conforto do que antes.

O primeiro-ministro apenas sorrira, compreensivo, comentando em seguida:

- Creio que nem achar graa viajando assim, to protegido contra a crua realidade.

No havia resposta para isso.

Quando o duque viajava para sua villa no sul da Frana, ansiava pela vastido, o vazio e a aridez do deserto do outro lado do Mediterrneo. Sentia saudade do sol 
forte, dos camelos, do cheiro da terra selvagem e do povo que a habitava.

"Mais cedo ou mais tarde vou deixar tudo isto aqui", costumava dizer a si mesmo.

Entretanto, sempre havia uma fora que, como um im, o atraa para a Inglaterra, para Londres, para Lynd.

Era em Lynd, porm, que o duque se sentia bem, e sua terra o fazia aceitar e tolerar todas as pompas e as circunstncias das quais ria e desdenhava.

Lynd era um lugar maravilhoso e sua manso era uma obra de arte, com suas colunas jnicas no prtico majestoso.

A galeria de quadros continha tesouros que haviam sido colecionados pela famlia desde o surgimento do primeiro Brooke, que fora sagrado cavaleiro, depois da Batalha 
de Agincourt.

Quando se via sozinho, o que era raro, o duque gostava de andar pela casa. Sua vontade era tocar cada quadro, cada esttua, cada livro, cada pea do mobilirio, 
para ter certeza de

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que tudo aquilo era real. Ele ainda receava de que tudo no passasse de fruto de sua imaginao.

"Tudo isto  meu! Meu", dizia ele a si mesmo.

Ento se lembrava de que era apenas o curador da casa e de seus tesouros durante a sua vida, pois tudo aquilo pertenceria aos que viessem depois dele: a seu filho, 
se tivesse um, ou a um primo, como fora o seu caso - e havia muitos deles.

Havia tambm muitas mulheres a lhe dizer que ele era a pessoa certa para ser o duque de Lyndbrooke.

- Voc  um amante perfeito! Chega a ser injusto que, alm disso, ainda possua toda a sua fortuna e tenha o ttulo de duque!

- Imagino se teria a mesma opinio se eu no os possusse

- respondera ele com ironia.

- Voc sabe que eu o amo por ser apenas o homem que 

- respondera ela apaixonadamente.

Anastcia tambm lhe dissera a mesma coisa, e, quando a pedira em casamento, escarnecera dele. Agora que ele j se convencera de que ela nada mais significava em 
sua vida, eis que reaparecia.

Anos antes, o duque ficara sabendo que, assim que deixara Cingapura, Anastcia casara-se com o conde de Calverton. Certamente ela se sentia feliz por ter encontrado 
algum rico e portador de um ttulo que vinha procurando.

Quando recebera a notcia do casamento dela, ele passara diversas semanas desatinado, com uma expresso de revolta nos olhos e uma curva cruel nos lbios.

O melhor modo de curar o que ele chamava de "ataque de rabujice", causado pela dor-de-cotovelo, foi procurar algum que fosse o oposto de Anastcia.

Encontrou uma mulher suave e doce, que o olhava com adorao. Ela lhe dizia milhares de vezes que, se j no fosse casada, iria pedir a ele, de joelhos, que se casasse 
com ela.

Quando Tristram deixou sua doce e terna amante, sentiu-se curado e passou a achar novamente o mundo um lugar interessante.

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Agora, enquanto olhava para a linda Anastcia, que cumprimentava o anfitrio e duas outras pessoas conhecidas, ele pensava que os anos que se haviam passado desde 
a separao de ambos foram bondosos para ela.

Anastcia estava ainda mais exoticamente bela do que antes.

Vendo o vestido que ela usava, ele pensou ceticamente que, no passado, jamais poderia dar-lhe um igual. Suas jias, que pareciam ser de famlia, eram lindssimas 
e, certamente, no tinham preo. A tiara de esmeraldas e diamantes, que combinava com o colar, refletia o verde dos olhos dela.

Anastcia se virou para olhar o duque. Tristram no duvidava que ela sabia da presena dele naquele jantar, pois no demonstrou a menor surpresa ao v-lo, ao passo 
que ele nem imaginava encontr-la ali.

Ela caminhou em direo ao seu amor do passado sem pressa, e com uma graa sem igual nos movimentos sinuosos que ele ainda conservava na memria.

Com a mo na do duque, ela disse com suavidade:

- Voc continua muito bonito, mon cher!

Ele riu. Era to prprio de Anastcia dizer coisas assim inesperadas!

- Devo retribuir o elogio - respondeu ele. - Voc est linda! Ainda mais linda do que da ltima vez em que a vi!

- Queria lhe dar exatamente essa impresso. Precisamos conversar. Tenho muito a lhe dizer.

O duque quis recuar, mas, assim que moveu os lbios, Anastcia afastou-se e ele se viu diante do conde.

- Como vai voc, Lyndbrooke? - perguntou o conde, com sua voz grave de velho. - Minha esposa fala muito em voc, e lamento dizer que me aborreci quando seu cavalo 
venceu o meu na ltima corrida, em Epson.

- Lembro-me disso, mas no o vi, por l.

- Ah, sim, eu estava em Paris. Fui a servio de Sua Majestade, e  desnecessrio dizer que minha esposa no sai de casa sem antes comprar tantos vestidos novos que 
daria para vestir todas as atrizes de Drury Lane!

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O duque riu. Era a primeira vez que conversava com o conde, e simpatizou com o espirituoso velho.

O conde era bem mais velho do que ele imaginara, mas tinha certeza de que isso no aborrecia Anastcia. Certificou-se disso quando ouviu a senhora que se sentara 
a seu lado durante o jantar dizer:

- Vejo que aquela mulher fatal est aqui. Isso j basta para estragar a festa.

- E quem  ela? - perguntou o duque.

- A condessa de Calverton. Detesto-a, principalmente porque os homens a consideram irresistvel, e parece que ela pensa o mesmo sobre eles - respondeu ela com olhos 
duros e cheios de rancor.

Observando Anastcia do outro lado da mesa, o duque pde compreender a razo do desabafo. Ela flertava com os homens que se encontravam,  sua frente na longa mesa, 
e todos eles pareciam enfeitiados.

Mais tarde, depois do jantar, quando alguns dos hspedes se dirigiam para o jardim, na parte lateral da casa, Anastcia foi ao encontro do duque. Ele acabava de 
falar com o primeiroministro. Ento, sem saber como, viu-se andando ao lado de Anastcia, sobre o gramado, debaixo das grandes rvores.

A noite estava estrelada e o jardim, suavemente iluminado. Era-lhe possvel ver os olhos verdes daquela mulher fascinante fixos nele. Ela disse suavemente:

- Quando poderei v-lo? Hugo vai todas as tardes ao clube.

- No, Anastcia.

- O que quer dizer "no"? Tenho muito o que dizer a voc, e, afinal, voc  meu velho amigo.

Houve uma ligeira hesitao por parte do duque ao ouvir as ltimas palavras, ditas em tom malicioso.

- Eu disse "no" e quis dizer "no". - Havia firmeza na voz do duque. - Voc j me torturou demais, Anastcia, mas aprendi a viver sem voc, e no tenho a menor 
inteno de voltar a me destruir.

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Anastcia riu, com a atitude de uma mulher muito segura de si mesma, e retrucou:

Oh, mon brave, como pude ser tola a ponto de no aceitar seu pedido de casamento? Como poderia eu ter adivinhado que voc iria se tornar o que  agora?

Ela deu um profundo suspiro.

- Eu seria hoje uma duquesa da qual voc teria orgulho.

- Mas, afinal, conseguiu se tornar uma condessa digna dos maiores louvores - retrucou o duque. - Portanto, esqueamos o passado e sigamos nossos caminhos, cada um 
para seu lado, como aconteceu quando voc me abandonou.

- Nunca houve outro homem como voc!

- Mas houve muitos outros com os quais me comparou.

- Claro! - admitiu Anastcia.

Ele riu, pois seria muito estranho ela no ter seus casos de amor.

Tendo chegado ao fim do gramado, os dois voltaram caminhando lentamente em direo  casa.

- Ir me ver amanh?

- Impossvel. Vou voltar para Lynd. Receberei muitos hspedes neste fim de semana.

- Sua casa  linda como dizem?

- Magnfica!

Ele queria exaltar a beleza de Lynd s para feri-la. Ficou um instante em silncio, antes de acrescentar:

- O que quer que esteja planejando, Anastcia, a resposta  "no"! Diz o ditado: "Gato escaldado tem medo at de gua fria". E no tenho a menor inteno de me esquecer 
desse sbio provrbio. Agora, se j conseguiu o que queria, faa um esforo e trate de se comportar bem.

- S voc poderia me fazer agir assim, querido. Sempre adorei seu jeito dominador e autoritrio, muito diferente dos outros homens que rastejam aos meus ps.

O duque sabia que isso era verdade. Na poca de sua paixo Por Anastcia, sentia-se dominado pelo cime e havia sido muito rude com ela. Se a visse flertando com 
outro, dava-lhe uns safanes,

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e, se ela insistia, ameaava agir mais violentamente. Poderia at chegar a espanc-la.

Havia qualquer coisa de selvagem em Anastcia, e ela parecia ao mesmo tempo insatisfeita. Agora ele se divertia pensando que, afinal, ela pagava algum tributo por 
suas culpas. Eles pararam sob uma janela de onde vinha luz, e o duque disse:

- Boa-noite e adeus, Anastcia! Foi muito agradvel rev-la, mas lembre-se: a resposta  no.

- Tem tanta certeza assim?

Ao deix-la para entrar no salo, o duque sabia que ela ria dele.

No salo, procurou o ministro da Fazenda e sentou-se perto dele, absorvendo-se logo numa conversa sobre o novo oramento.

A conversa foi, porm, interrompida, e s ento o duque percebeu que lady Branston estivera no jantar. No a havia notado antes, pois, desde que vira Anastcia, 
no conseguira pensar em qualquer outra pessoa.

Voltou-se ento para lady Branston, no s por sentir-se atrado por sua beleza, mas tambm porque era mais do que evidente que ela tambm se sentia atrada por 
ele, e falar com ela seria um alvio para seus pensamentos tumultuados.

- Espero ansiosa ir para Lynd amanh - disse Lucy de modo suave e sedutor.

Ela era o oposto de Anastcia. Seus cabelos dourados e os olhos azuis eram encantadores. Ela encarnava a beleza fsica da mulher inglesa, e nada tinha de extico.

- No vejo a hora de lhe mostrar minha casa e meus tesouros.

- Ser maravilhoso! S o fato de tudo isso pertencer a voc, ser como viver um conto de fadas.

No havia dvidas de que o sorriso que ela lhe dirigia era bem convidativo.

- Quero que passe momentos alegres. Se me disser o que deseja fazer, poderemos at faz-los juntos.

Flertava com lady Branston, e sabia que, na primeira oportunidade que se apresentasse, ela cairia em seus braos.

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Desde que a conhecera, percebera que ela se interessava por ele, mas sempre demonstrara esse intresse com classe e discrio, pois era bastante astuta para no demonstrar 
abertamente o que sentia.

Tristram no tinha dvidas de que nas rodas sociais em que vivia havia pouqussimas mulheres ou talvez nem existisse nenhuma que fosse to linda quanto Lucy, nem 
to espirituosa.

Se viesse a ter um romance com ela, ningum os criticaria, desde que fossem discretos.

Quanto a lorde Branston, nada podia dizer. Sabia apenas das queixas de Lucy de que seu marido era velho e no a compreendia. A vida conjugal de ambos devia ser bem 
inspida. Havia na vida dela lugar para um amante.

H muito tempo o duque no acreditava que as mulheres fossem fiis a seus maridos. Quando mais jovem, sim, pensava que todas as mulheres fossem como sua me: dedicadas, 
devotadas aos homens que haviam desposado.

Quando estivera na ndia, descobrira que as mulheres inglesas, em sua maioria, pouco se preocupavam com os maridos, que trabalhavam arduamente nas plancies, enquanto 
elas se distraam nos postos das montanhas, onde viviam.

Em outros pases, tambm conhecera mulheres atraentes que no hesitavam em ir sorrateiramente para o quarto dele durante a noite. Muitas delas chegavam a convid-lo 
para ir ao quarto delas.

Em Londres, era muito fcil ter um caso amoroso, pois a maioria dos maridos passava as tardes nos clubes. L ficavam at a hora de voltar para casa e vestir-se para 
o jantar.

Logo que se tornara duque, ele achara muito aborrecido passar uma tarde toda fazendo amor com uma linda mulher, quando podia cavalgar pela sua propriedade. Em outras 
ocasies preferia ir at  Cmara dos Lordes para assistir a debates polticos.

Diante desse desinteresse, as mulheres tentavam seduzi-lo com olhares convidativos e lbios sedutores. Mos de seda envolviam-lhe

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o pescoo antes mesmo que ele soubesse o nome da linda mulher que o cobiava.

Ele no via razo para no sucumbir a esses convites. Assim, seguiu o que era moda, e devia admitir que tivera momentos de raro prazer.

Aquilo tudo era inerente  sua nova posio, seu ttulo, suas propriedades, seus quadros.

 medida que um affaire de eoeur terminava, outro comeava. Mas s dava ateno a tais casos enquanto se encontrava ao lado da senhora em questo, depois no se 
preocupava muito com eles.

Apenas ocasionalmente, quando via uma linda paisagem ou ouvia uma msica que parecia ecoar dentro de seu corao, ele se perguntava por que, em algum lugar obscuro 
de sua mente, havia um desejo de algo muito maior e mais verdadeiro do que tudo o que j experimentara at ento.

Mas no sabia a resposta para essa ansiedade. Todavia, tinha certeza de que durante suas viagens pelo mundo buscava algo muito precioso, como Jaso buscara seu "velocino 
de ouro".

Enquanto se afastava de Devonshire House em sua carruagem, o duque pensava em Anastcia. Tomara, porm, a firme deciso de no tornar a v-la.

No duvidava de que iria apreciar os prximos dias em Lynd, tendo lady Branston a seu lado. Isso evitaria que seus pensamentos se desviassem para o extico fascnio 
de Anastcia sobre ele.

"Nunca mais!", prometeu a si mesmo.

Como falasse alto, ele prprio se surpreendeu com a firmeza de sua voz.

J deitado, no conseguia dormir.

Finalmente, s quatro da manh, se levantou. Caminhando at uma das janelas, abriu as cortinas para admirar os primeiros raios de sol que logo surgiriam, afastando 
o manto escuro da noite.

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As estrelas j perdiam seu brilho e uma nvoa muito leve, como um vu, envolvia as rvores de Hyde Park.

O duque pensou em Lynd. Sua casa devia estar linda quela hora. Teve vontade de estar naquele momento na manso, de frente ao lago.

"Por que me aborreo frequentando a sociedade, se posso cavalgar, se possuo os mais soberbos cavalos e se posso respirar a brisa fresca da manh?"

Tambm seria maravilhoso estar navegando em um dhou em algum rio que nem constasse nos mapas ou, ento, estar viajando sobre as areias escaldantes do deserto, num 
mundo quase infinito, onde cu e areia se confundem, em sua imensido, em apenas uma linha fina.

Mas o bom senso lhe disse que ele estava sendo ingrato. O que mais poderia querer, alm de tudo o que j possua?

Ele fechou as cortinas e voltou para a cama. Ali deitado, forou-se a voltar o pensamento para Lucy Branston e para a promessa que vira em seus olhos azuis.

"Ela  certamente muito atraente!", murmurou.

Mas ainda demorou algum tempo para adormecer.

O duque partiu para Lynd depois do breakfast. A viagem costumava ser de duas horas e meia.

Sua carruagem, projetada para desenvolver grande velocidade, era puxada por quatro cavalos magnficos.

Havia um sorriso nos lbios de Tristram ao pegar as rdeas. Um cavalario subiu depressa na parte de trs da carruagem, e o duque sorriu, feliz por no ter ningum 
ao seu lado. Gostava de dirigir os cavalos, assim podia se concentrar somente na viagem, que prometia ser agradvel.

Era um prazer inenarrvel possuir animais to soberbos. E pensar que h no muito tempo, em sua casa, com o pai, ele tivera que se contentar em caar montado em 
cavalos baratos...

Relembrou as estranhas montarias que j utilizara em suas viagens pelas diferentes regies do mundo.

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Agora podia sempre se dar ao luxo e ao prazer de comprar o que havia de melhor, pois s lhe eram oferecidos animais da melhor qualidade, e seu nome era conceituado 
nos leiles de Tattersall's.

O duque raramente ia a seu clube, em St. James Street, sem que um dos amigos lhe pedisse para ir a seus estbulos ver seus puros-sangues, pois sempre havia a possibilidade 
de apreciarem um cavalo que estivesse  venda.

"Tenho tudo!", pensou o duque.

Naquele momento, ele se lembrou de uma carta que se achava entre outras, na pilha que o secretrio lhe trouxera logo depois do breakfast, antes de partir para Lynd. 
Ele havia aberto a carta, que havia sido mandada pela av materna. A boa velhinha era muito franca, e fora, no passado, lindssima. Agora, j com idade avanada, 
esperava que todos atendessem a seus pedidos, como no tempo em que era impossvel algum lhe recusar o que quer que fosse.

O duque havia lido o contedo da carta, que fora escrita em caligrafia bonita e ainda bem firme, e que dizia:

"Soube que est indo para Lynd, mas, quando voltar de l, desejo v-lo. Quero conversar com voc, Tristram, sobre seu casamento, uma vez que  absolutamente necessrio 
que tenha um filho - na verdade, muitos filhos que possam herdar seu ttulo.

Convm se lembrar do que aconteceu ao pobre Desmond, que teve apenas um filho, uma criaturinha doentia que pouco viveu..."

A carta no terminava a, mas o duque nem leu o resto e, impaciente, dobrou-a e colocou-a no bolso.

Por que seus parentes no o deixavam em paz? Por que no podia viver sozinho?

No havia dvida de que, um dia, que poderia ainda estar bem distante, ele se casaria, mais pensando em ter um herdeiro.

Entretanto, no tinha a menor inteno de tomar por esposa uma mulher que no merecesse seu nome e sua posio.

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Talvez isso significasse estar lamentavelmente preso a alguma jovem de famlia nobre, porm de cabea vazia. Isso tornaria principalmente seus primeiros meses de 
casamento terrivelmente enfadonhos.

"Vou fazer o que desejo, e no momento meu desejo  continuar solteiro!", disse a si mesmo.

Estimulou os cavalos para que fossem mais depressa. Ansiava por chegar logo a Lynd.

Em breve poderia apreciar seus domnios em paz.

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CAPTULO III

Katerina olhou ao redor e viu que a sala de jantar era exatamente como imaginava. Ela ficara fascinada por Lynd assim que a carruagem entrou na propriedade. Logo 
 sua frente viu a grande casa, com suas alas que se estendiam dos dois lados do bloco central.

No lago,  frente da majestosa manso, alguns cisnes deslizavam suavemente sobre a superfcie prateada da gua.

No topo do telhado, o estandarte do duque agitava-se no ar, contrastando suas cores com o azul do cu. O sol da tardinha, refletindo nos vidros das janelas, parecia 
um dourado e caloroso voto de boas-vindas.

No hall enorme, havia nichos com esttuas de deusas e deuses gregos. Mais adiante via-se uma magnfica escadaria de mrmore, de corrimo dourado, que conduzia at 
um patamar, cujo teto era uma cpula. Nada podia ser mais majestoso do que aquele lugar.

Quando viu o duque caminhando ao encontro deles no salo ricamente mobiliado, no primeiro andar, Katerina no pde deixar de pensar que aquele homem fascinante se 
ajustava perfeitamente quele ambiente.

- Bem-vinda a Lynd! - disse ele a lady Branston. -  difcil expressar como estou feliz em v-la!

Katerina notou a expresso de xtase nos olhos da tia por estar finalmente em Lynd, depois de tantos preparativos, e ficou conjecturando se o tio percebera o que 
aquela casa e seu dono representavam para a esposa. Mas, certamente, toda aquela vibrao devia ser apenas devido  grande importncia do duque. No havia, com certeza, 
nada pessoal na atitude dela,

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apesar de os olhos azuis brilharem singularmente e de a mo de Lucy ficar nas do duque muito mais tempo do que o necessrio.

Passou-lhe, entretanto, pela cabea que, se aquilo no fosse impossvel, ela at acreditaria que a tia estava apaixonada pelo duque de Lyndbrooke. Afastou, porm, 
aquele pensamento, considerando-o ridculo, e disse a si mesma que estava imaginando coisas.

Apesar de ter viajado muito com seus pais e de ter muita experincia de vida, Katerina era inocente no que dizia respeito a sentimentos entre homens e mulheres, 
principalmente os da alta sociedade. Em casa, tivera o exemplo de um casal apaixonado. Seus pais se amavam tanto e eram to devotados um ao outro que ela imaginava 
que a maioria dos casais vivia na mesma harmonia.

Ao notar a maneira de o tio olhar para a esposa e seu jeito delicado de falar com ela, Katerina percebeu que ele estava apaixonado por tia Lucy, o que a fez supor 
que a tia tambm sentia amor pelo marido.

Mas aquele no era o momento adequado para pensar nessas coisas.

O duque cumprimentou lorde Branston, e ento Lucy disse, num tom de voz um tanto afetado:

- Esta  Katerina, que se sente muito grata por sua amabilidade em inclu-la entre seus convidados. Ela prometeu-me no lhe causar problemas, e tenho certeza de 
que ter muito com que se ocupar nesta sua casa admirvel.

O duque sorriu para Katerina e estendeu-lhe a mo.

Assim que tocou aquela mo, Katerina teve uma sensao estranha, que no sabia explicar. Sentiu tambm que o duque, bem no ntimo, no era a pessoa que aparentava 
ser exteriormente.

Em seguida, foi apresentada a tantas pessoas que chegou a ficar confusa. Havia muita gente no salo, e todos eram mais velhos do que Katerina. As mulheres vestiam 
roupas to exuberantes, ricas e enfeitadas como as da tia.

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Cumprimentaram lady Branston com palavras amveis, cuja falsidade chegava a parecer um insulto aos ouvidos delicados de Katerina.

- Querida Lucy, que alegria v-la aqui! Voc est ainda mais adorvel!

Cada palavra era desmentida pela expresso da inveja indisfarvel da pessoa que as dizia.

Katerina sabia que, numa circunstncia como aquela, no devia ficar analisando o comportamento dos outros convidados. Entretanto, acostumara-se a ver as pessoas 
com o que chamava de "terceiro olho".

Quando estivera no Egito, a me chamara-lhe a ateno para a protuberncia que se via na testa dos faras, sinal secreto do "terceiro olho".

O "terceiro olho" era uma capacidade instintiva que permitia que se visse as pessoas alm de sua aparncia exterior, podendo-se assim fazer um juzo mais verdadeiro 
sobre elas.

Katerina sempre ficara intrigada com isso, e procurava pr em prtica e testar essa capacidade que julgava ter. Certa vez, ela dissera  me que seu "terceiro olho" 
a aconselhava a no comprar um vaso que o vendedor alegava ter sido encontrado em uma tumba milenar, pois, na verdade, o vaso havia sido feito na vspera.

Fora o pai de Katerina quem a estimulara a usar essa capacidade intuitiva. Michael pedia sempre a opinio da filha sobre as pessoas que vinham  casa deles em Amiens. 
Depois que a filha expressava sua opinio, o pai lhe dizia se ela acertara ou no em seu julgamento. s vezes Katerina errava, mas seus enganos eram raros. Noventa 
por cento das vezes em que opinava, sua percepo mostrava-se correta.

s vezes, achava embaraoso ter tal capacidade, e preferia se distrair com coisas mais prprias para uma jovem de sua idade a ficar questionando ou querendo adivinhar 
o que havia no "mundo secreto" de cada um.

Os aposentos para onde foram levados eram to luxuosos

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quanto o restante da casa. A tia de Katerina achou que no era necessrio que a sobrinha ficasse num quarto vizinho ao dela.

Os aposentos de lady e lorde Branston eram lindssimos. A cama era enorme e toda entalhada, com quatro colunas douradas. Ao lado do quarto havia um quarto de vestir 
e uma saleta, com vasos cheios de cravos cor-de-rosa e lindos quadros.

Para alegria de Katerina, seu quarto tambm tinha o teto todo pintado e algumas telas italianas na parede, do mesmo estilo do teto. A cama tinha um cortinado que 
descia de uma roscea dourada bem alta, quase chegando ao teto.

O toucador tambm tinha, em toda a sua volta, uma cortina toda drapeada, em musselina, arrematada com renda feita a mo. As paredes azuis-claras tornavam o quarto 
muito romntico, prprio para uma jovem.

Os outros quartos daquela ala estavam desocupados, pois os demais hspedes achavam-se no outro corredor.

Os aposentos do duque ficavam do outro lado do patamar, naquela mesma ala.

A governanta explicara aos recm-chegados:

- Os aposentos de Sua Alteza ficam na verdade na ala oeste, mas, como os cupins atacaram os painis de madeira, o quarto e a sala de estar da sute principal esto 
sendo reformados e redecorados. Sua Alteza ocupa os aposentos desta ala provisoriamente.

E indicou uma porta logo depois do patamar.

- Que amolao para ele! - comentou lady Branston. Katerina no deixou de notar que a tia se mostrava feliz por estar to perto da sute do duque.

Logo que os males subiram, uma jovem criada arrumou as roupas de Katerina em uma cmoda e no quarda-roupa. Chamava-se Emily e era ela quem iria cuidar de Katerina, 
sob a superviso de uma aia mais velha. Lady Branston trouxera sua prpria aia, e lorde Branston, seu criado de quarto.

Katerina costumava viajar com o mnimo de bagagem possvel, e tivera vontade de rir ao ver a verdadeira montanha de bagagem no hall da casa dos tios antes de partirem. 
Todas as

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malas e males foram colocados em uma carruagem separada, onde viajavam a aia de Lucy e o criado de quarto de Arthur, que cuidavam de tudo. Lorde e lady Branston 
no se preocupavam com nada, nem mesmo com a grande caixa de couro cheia de jias valiosssimas.

Quando j estava pronta para descer para o jantar, Katerina foi se encontrar com a tia, que estava linda. Seu vestido azul era aquele que a vendedora dissera combinar 
com os olhos dela. Suas jias, um conjunto de vrias peas todo montado em turquesas e diamantes, eram dignas de uma rainha. A tiara realava os lindos cabelos dourados 
e os brincos eram to grandes que quase tocavam o colar, que cobria a maior parte do colo alvo. Completando o conjunto havia um broche, braceletes e anel.

Katerina achou que seria impossvel haver uma mulher que pudesse eclipsar a tia, at que viu outras senhoras igualmente resplendentes.

Quanto a si mesma, no usava jia alguma. Sua me havia vendido as poucas peas que possua quando precisara de dinheiro para uma das habituais viagens da famlia.

- Comparada s convidadas de Sua Alteza, estou vestida com muita simplicidade - disse Katerina a Emily.

Lady Branston havia mandado chamar a sobrinha, para inspecionar o vestido novo que ela usava.
- Voc est bem - disse a tia. - Estarei pronta em cinco minutos. Pode esperar-me em seu quarto.

Ao dizer isso, as palavras at vibraram de hostilidade. Katerina voltou depressa para seu quarto, sem entender o motivo de tamanha hostilidade.

- Est linda, srta. Darley! - exclamou Emily. AS flores logo estaro aqui, e elas a enfeitaro to bem como jias.

- Flores?

- Os criados sempre trazem buqus para as senhoras, caso elas queiram us-los em seus vestidos, e uma flor para os cavalheiros usarem na lapela.

- Que boa ideia!

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Nesse instante bateram  porta. Emily foi atender e pegou uma bandeja que o criado trouxera, levando-a para Katerina.

Havia ali orqudeas roxas e amarelo-esverdeadas, e muitos cravos, estes principalmente para a lapela dos cavalheiros.

Katerina achou as orqudeas exticas demais, e procurou entre as flores algo mais delicado. Viu algumas florzinhas brancas e delicadas: eram botes de jasmim. Vira 
muitas dessas flores no Oriente, onde eram chamadas de frangipani.

Enquanto ela sentia o doce perfume dos jasmins, Emily disse alegremente:

- Vou prender algumas dessas flores numa fita e amarrar em seu pescoo.

- Era exatamente isso o que eu estava pensando. Posso puxar uma das fitas que enfeitam a minha angua.

Com muito jeito, Emily prendeu os botes de jasmim na fita e amarrou-a ao redor do pescoo de Katerina, o que deu uma graa maior ao vestido branco, realando o 
pescoo e os ombros nus.

Havia ainda muitas flores, e Emily arrumou algumas na parte de trs da cabea de Katerina, como as mulheres indianas costumavam fazer.

- Agora est ainda mais linda, srta. Darley. Nenhuma outra senhora  mesa de Sua Alteza vai chegar aos seus ps! - exclamou a criada, contente.

- Obrigada, mas duvido que algum note minha presena, uma vez que todos os olhares estaro presos s outras senhoras, com suas jias ofuscantes e suas anquinhas 
em cascata.

Nesse instante a aia de lady Branston bateu  porta. Katerina foi depressa para o corredor, e viu que os tios j desciam a escada.

Outros hspedes logo se juntaram a eles. Katerina viu que acertara quanto ao brilho das jias. Certamente ningum a notaria mesmo.

Isso no a aborrecia, at a deixava mais  vontade para admirar tudo e todos ao seu redor e apreciar a beleza da sala de jantar, onde os quadros e as molduras douradas 
eram um complemento

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perfeito para as paredes verdes-ma, caracterstica da decorao de Adam. No centro da mesa havia castiais de ouro e arranjos de orqudeas.

Era impossvel no admirar o duque, sentado  cabeceira da mesa, em sua cadeira de espaldar alto. Ele parecia onipotente, e todos os presentes, principalmente as 
mulheres, o reverenciavam como se ele fosse um rei.

Katerina comeou a imaginar as senhoras fazendo uma reverncia diante do duque e os cavalheiros curvando-se, respeitosos, enquanto Sua Alteza apenas inclinava a 
cabea, em retribuio.

Achava-se to absorta que se surpreendeu quando o cavalheiro que se sentara ao lado dela comentou:

- Em que est pensando, com esse ar to srio? No posso acreditar que no esteja apreciando esta recepo em uma das mais magnficas manses palacianas da Inglaterra!

- Sim, claro, estou apreciando muito. Esperava mesmo que uma grande e importante manso inglesa fosse exatamente assim.

O cavalheiro sorriu e disse:

- Voc parece jovem demais para apreciar uma festa deste tipo, e deve estar achando todos os presentes um bando de fsseis.

Os olhos de Katerina brilharam.

- Tenho certeza de que as senhoras no acharo nada elogiosa esta sua observao.

- No, certamente - concordou o cavalheiro. - J que me repreendeu, devo ser mais gentil e reparar o que fiz, comeando pela senhorita. Permita-me que lhe diga que 
est excepcionalmente linda para algum to jovem!

- Obrigada.

Ela no se sentiu embaraada com o elogio. Tendo morado na Frana, estava acostumada a receb-los. Mesmo sua me recebia palavras elogiosas de quase todos os cavalheiros 
que vinham  sua casa.

Mantendo a conversa polida e descontrada com o cavalheiro

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Katerina descobriu que ele se interessava por cavalos e tambm colecionava selos, sendo, na verdade, um grande entendido no assunto.

- Meu pai colecionava selos de todos os pases que conhecemos.

- Ento no os perca - aconselhou o cavalheiro. - Um dia sero muito valiosos. Na verdade, alguns deles j so carssimos.

Katerina olhou para um cavalheiro que estava sentado  sua frente. Ele parecia muito interessado na conversa que mantinha com sua vizinha de mesa, e ambos davam 
a impresso de divertir-se muito, a julgar pelos risos. Desde que o jantar comeara, os dois no haviam demonstrado interesse em conversar com mais ningum.

Sentindo-se observado, o cavalheiro perguntou a Katerina, um tanto bruscamente:

- Tem alguma coisa a dizer, minha jovem?

- Depende do assunto sobre o qual esto conversando. Eu estava neste instante tentando adivinhar quais seriam seus interesses, e imagino que o senhor seja um poltico.

- Voc  muito esperta, a no ser que esteja me enganando e algum j lhe tenha dito que eu sou o ministro das Relaes Exteriores.

Aquele cavalheiro era o conde de Kimberley! Katerina susteve a respirao. Minutos depois, ambos conversavam animadamente sobre os pases em que o conde de Kimberley 
estava interessado, muitos dos quais Katerina j conhecia.

A vizinha de mesa do conde de Kimberley reclamou a ateno dele novamente, e o ministro relutou em deixar a conversa agradvel que mantinha com a jovem.

Certamente a me de Katerina sentiria orgulho da filha pelo seu desembarao naquela sua primeira grande recepo.

Terminado o jantar, as senhoras deixaram a sala e foram para o salo. Lady Branston simplesmente ignorou a sobrinha. Katerina no quis chamar a ateno, e ficou 
muito contente em poder ficar olhando os quadros.

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Havia outros tesouros no salo onde todos se haviam reunido antes do jantar. Sobre os dunquerques, que por si j eram verdadeiras obras de arte, ela pde admirar 
colees de caixas de rap e lindas peas de porcelana de Dresden.

Aps alguns minutos, os cavalheiros vieram tambm para o salo. Ali j haviam arrumado as mesas para um jogo de cartas. Mas os grupos ainda decidiam se preferiam 
jogar ou ficar conversando, sentados confortavelmente nos sofs.

Katerina preferiu ir at uma das janelas, e puxou um pouco as cortinas. O que viu f-la suster a respirao. A lua brilhava em um cu repleto de estrelas brilhantes, 
e o luar prateava as guas do lago.

Aquela cena era to linda que, como sempre acontecia, ela sentiu que a beleza tomava conta de sua alma e fazia seu corao transbordar de felicidade.

Uma voz profunda atrs dela sobressaltou-a.

- O que gostaria de fazer, srta. Darley?

Mesmo sem saber quem falava com ela, Katerina respondeu:

- Gostaria de voar at as estrelas e depois mergulhar nas guas prateadas.

Ela falou com voz muito suave. No ouvindo resposta, virou-se e viu o duque atrs de si. Ele a olhou de um modo muito estranho. Por um momento, apenas a fitou dentro 
dos olhos, e depois disse, com uma voz que ela achou ligeiramente irnica:

- Fico feliz em saber que admira minha casa.

- A casa  maravilhosa.

- Espero que tambm ache que ela seja um belo ambiente para seu dono!

Katerina no teve mais nenhuma dvida de que ele estava mesmo sendo irnico.

No sabia que todas as mulheres haviam dito a mesma coisa ao duque desde que haviam chegado a Lynd. Ele ouvira frases como aquela milhares de vezes desde que herdara 
aquela linda propriedade.

Para surpresa dele, Katerina olhou para as estrelas.

- No tenho muita certeza de que este seja o ambiente prprio

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para Vossa Alteza - disse ela, como se falasse consigo mesma.

- O que quer dizer com isso?

- Posso estar enganada, mas o ambiente prprio para Vossa Alteza talvez sejam as altas montanhas do Himalaia, cobertas de neve, ou o deserto infinito, com suas areias 
douradas sob o sol abrasador.

No compreendia por que dizia aquelas palavras. Era o que lhe vinha  cabea. Percebeu ento que estava usando o seu "terceiro olho", apesar de tentar no mais fazer 
aquele tipo de exerccio.

Atnito, o duque manteve-se em silncio por um instante. Depois disse diretamente:

- Quem andou lhe contando coisas sobre mim?

- Ningum - disse Katerina depressa. - Sinto muito se fui rude, mas fez-me uma pergunta, e eu disse o que me veio  cabea.

-  exatamente isso o que me surpreende.

Ele ia pedir-lhe para explicar como e por que dissera aquilo, mas a porta do salo se abriu e o mordomo, olhando pelo salo e vendo o duque, anunciou:

- O conde e a condessa de Calverton, Alteza!

Por um momento, o duque sentiu que se transformava em pedra. Porm, com um esforo enorme, caminhou em direo aos recm-chegados.

Anastcia estava estonteantemente bela. Usava um casaco de viagem arrematado com zibelina, e seu chapu era enfeitado de plumas.

- Meu caro duque! - ela exclamou, estendendo-lhe a mo.
- Perdoe-nos por estarmos atrasados. Falei a Hugo sobre o seu amvel convite para passarmos uns dias aqui como seus hspedes, mas ele deve estar em Buckinghamshire 
amanh cedo.

Anastcia apertou demoradamente a mo do duque. Este pensava em como poderia protestar, pois nem a convidara, quando o conde interveio:

- Meu caro Lyndbrooke, o que minha esposa quer dizer 

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que vou deix-la aqui com voc e seguirei viagem. Ficarei em casa de lorde Buckhurst. Vai haver uma exposio de gado em Buckinghamshire, da qual serei o juiz. Anastcia 
acha a viagem muito cansativa, principalmente por ser feita  noite, mas creio que a razo principal de ela no querer ir at l  que no se interessa por esse 
tipo de diverso, sabe muito bem disso.

Ele riu, e antes que o duque pudesse dizer qualquer coisa, a voz melodiosa de Anastcia soou:

- Sei que ficarei muito bem aqui, meu caro duque. A casa de lorde Buckhurst  reconhecidamente fria e exposta a correntes de ar.

Anastcia apertou novamente a mo do duque, e este, j recuperado da surpresa, disse:

- Fico muito feliz em t-la entre os meus convidados.

-  muita bondade sua, Lyndbrooke - disse o conde inexpressivamente. - Estarei de volta o mais breve que puder. Talvez amanh depois do jantar. Agora preciso me 
pr a caminho. O duque acompanhou o conde, descendo com ele as escadas e indo at  porta de entrada. Anastcia foi com eles e beijou o marido, numa despedida carinhosa.

- Divirta-se bastante, querido, e no se preocupe comigo. Se for preciso passar mais uma noite l para agradar a lorde Buckhurst, no hesite. Ele deve ter excelentes 
cavalos.

O conde riu.

- Certamente no posso voltar sem ver os cavalos. Adeus, Lyndbrooke. Foi muita amabilidade sua convidar-nos.

O conde desceu os degraus e entrou na carruagem, que o esperava.

Assim que a carruagem se afastou, o duque virou-se e viu Anastcia fixando nele seus olhos perturbadores, com um sorriso nos lbios.

- No sou esperta, mon brave? - disse ela em francs, para evitar que os criados entendessem.

- Voc  um demnio, e sabe bem disso! E  totalmente imprevisvel.

- Voc sempre adorou o imprevisvel.

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- Minha ltima palavra  "no, Anastcia.

- Ouvi-a muito bem. Voc sabe, porm, que no aceito um "no" como resposta.

Mesmo contra a vontade, o duque acabou rindo.

- Voc  terrvel e incorrigvel.

- E o que pode ser mais excitante do que isso?

Ao voltar para o salo, o duque procurou deliberadamente Lucy Branston. Como esperava, ela no demonstrava o mnimo sinal de aborrecimento pela chegada de Anastcia. 
Essa atitude era sinal de que nenhum comentrio sobre o relacionamento que houvera entre ele e a condessa no passado havia chegado at Mayfair.

Perturbado porque Anastcia no desistia de provoc-lo, o duque resolveu flertar com lady Branston com mais insistncia e mais ardor. Isso foi fcil, pois lorde 
Branston achava-se jogando cartas no momento.

Os dois puderam caminhar com muita naturalidade at a sala ao lado, pondo-se a olhar os quadros.

-  impossvel qualquer outra mulher estar mais maravilhosa do que voc neste momento - disse o duque. - Essas turquesas casam-se divinamente com a cor de seus olhos.

- Voc  muito amvel.

- Fao justia  sua beleza.

Ela apertou a mo dele, e o duque percebeu que desejava que ele a beijasse.

Depois de fechar a porta discretamente, o duque tomou lady Branston nos braos. Os lbios dela eram ardentes, famintos, apaixonados, mas ao mesmo tempo ela era controlada, 
o que Anastcia jamais fora.

O passado invadiu o pensamento do duque, e os beijos dele tornaram-se ainda mais insistentes. Lady Branston correspondia, e ambos ficaram trocando beijos e carcias 
at que ela ergueu a mo e a colocou na cabea, como se tivesse medo que a tiara casse ou que os cabelos ficassem em desalinho.

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- Voc  realmente adorvel - disse o duque com voz profunda.

- Fico feliz por voc pensar assim - ela respondeu, respirando fundo. - Devemos voltar. Podemos conversar mais tarde.

O duque percebeu exatamente o que ela queria dizer com aquilo, e beijou-a novamente. Ento, como no fosse prudente demorarem-se mais, abriu a porta e ambos voltaram 
para os sales.

O barulho das vozes soou aos ouvidos deles como o chilrear de um bando de pssaros.

Caminhando pelo salo com lady Branston, o duque pensava que no se poderia deixar enganar pelos ardis de Anastcia. Ele dissera "no", e seria "no". Ela teria 
que aceitar a deciso dele, gostasse ou no.

O duque percebera que lady Branston era muito cuidadosa, cheia de tato, discreta.

Naquele momento ela conversava animadamente com amigos sobre os quadros maravilhosos que havia visto com o duque na sala ao lado.

- Sinto grande alegria por ter a oportunidade de explorar os tesouros desta verdadeira caverna de Aladim.

-  isso o que sinto quando venho para Lynd - respondeu algum.

O duque se afastava quando Anastcia entrou no salo. Ela havia mudado de roupas com uma rapidez espantosa. Ele podia lembrar-se muito bem de que uma das coisas 
mais adorveis nela era que raramente deixava um homem esperando por ela.

Cintilando em suas jias e usando um vestido impecavelmentf passado, ela foi diretamente ao encontro do duque.

- Devo apresent-la aos meus hspedes - disse ele formalmente.

- Vim somente por sua causa, Tristram! Seus hspedes so todos aborrecidos!

Um criado serviu-lhe uma taa de champanhe, e Anastcia apenas molhou os lbios com a bebida.

Ao fazer isso, fixou, acima da borda da taa, os sedutores

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olhos verdes em Tristram. Ele viu que havia uma pergunta naqueles olhos.

- A resposta  "no",

- Poderia eu ter arranjado algo melhor do que a oportunidade de estar aqui sozinha com voc?

- O arranjo foi seu, no meu!

Ela tomou mais um pouco de champanhe e disse:

- Continuaremos esta conversa mais tarde, depois que seus convidados se recolherem.  sexta-feira, e estou certa de que todos esto cansados.

- No, Anastcia!

- Se voc no vier ao meu quarto, eu irei ao seu. Precisamos conversar, mon brave.

- No temos nada a dizer um ao outro.

A voz do duque era firme e dura, assim como o seu olhar, mas Anastcia apenas sorriu, dizendo a seguir:

- Vou dar-lhe vinte minutos depois que o ltimo convidado se recolher. Se voc trancar a porta, baterei nela com toda a fora.

Ela se virou, afastando-se, balanando um pouco as anquinhas com o movimento sensual do corpo.

Havia na ondulao daquele corpo um convite tcito, to perigoso quanto a cabea erguida e balouante de uma serpente.

O duque ficou furioso, mas no havia nada que pudesse fazer. No tinha a menor dvida de que Anastcia cumpriria a ameaa de vir at o quarto dele. Nada poderia 
ser mais desastroso do que ela bater  sua porta, fazendo barulho a ponto de ser ouvida por todos.

Compreendia, tarde demais, que deveria ter ordenado aos criados que acomodassem a condessa de Calverton na outra ala.

Com desalento, sups que os aposentos deles deviam ser bem prximos aos seus, pois estavam vagos quando Anastsia e o marido haviam chegado.

Agora nada podia fazer. Anastcia certamente estava bem instalada em uma tima sute, com quarto, quarto de vestir e uma saleta.

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"Mas que droga!", ele pensou irritado. "Por que no pensei antes em mand-los para bem longe?"

Ele tentava desesperadamente descobrir um meio de avisar a Lucy Branston que no fosse ao quarto dele naquela noite.

Os hspedes recolheram-se cedo, graas a Anastcia, que anunciou estar cansada. Todos acabaram por imit-la, indo para o outro andar.

Era costume todos os hspedes subirem para os quartos levando uma vela acesa, que lhes era entregue pelos criados, no hall.

Observando os hspedes entrarem em seus aposentos, o duque quis certificar-se de que Anastcia estava mesmo ali perto, e viu que sua suposio fora correta.

Os aposentos onde Anastcia se achava, dos mais luxuosos, eram conhecidos como "sute Rainha Anne". Lucy Branston e o marido achavam-se apenas duas portas depois, 
na "sute Charles II".

Nada podia ser mais desastroso. Entretanto, nada podia fazer,

O duque conseguiu dizer a lady Branston, em um tom de voz normal:

- Tenho certeza de que est to cansada quanto eu. Amanh estaremos bem dispostos, depois de uma boa noite de sono.

Mas ele duvidou que ela tivesse entendido a mensagem que ela quisera lhe enviar.
Anastcia, por outro lado, foi para seu quarto sem nada dizer, a no ser boa-noite.

Ele pde notar, pelas centelhas do olhar dela, a firme inteno de fazer o que havia prometido.

Sentia-se preso em uma armadilha, e era melhor nem tentar escapar.

Abriu a porta de seu quarto. Ainda acalentou a possibilidade de dizer ao seu criado de quarto que desejava dormir em outro lugar, mas desistiu da ideia, pois causaria 
problemas para os criados. Como havia muitos hspedes na casa, os melhores aposentos j se achavam ocupados. Poderia ir para outra ala, mas l os quartos no estavam 
arrumados.

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Se ele no fosse agora um homem de tanta importncia, tudo seria mais simples, e poderia acomodar-se onde quisesse. Agora, por ser o duque de Lyndbrooke, teria que 
utilizar os servios de muitos criados, que lhe providenciariam os mais finos lenis de linho, e transfeririam seus objetos pessoais, para os outros aposentos, 
desde suas navalhas e algumas peas de roupa, at seu pente.

Essa mudana no passaria despercebida, e, alm de tomar tempo, provocaria comentrios.

"Nada posso fazer", disse a si mesmo.

Ento decidiu ir at o quarto de Anastcia e dizer-lhe que no tinha a mnima inteno de ficar com ela. Precisava ser mais categrico e deixar ainda mais claro 
do que na noite anterior que o que houvera entre ambos no passado era agora um livro fechado. Ela no poderia reabri-lo.
S esperava que lady Branston no viesse ao quarto dele, como havia insinuado. Sabia que os homens idosos geralmente tm sono pesado, mas isso no queria dizer que 
dormissem depressa.

Se Lucy Branston tinha a inteno de deixar lorde Branston, certamente se- certificaria de que ele estivesse dormindo profundamente.

"Ela no se arriscar a vir ao meu quarto.  muito perigoso."

No havia dvidas de que a situao em que ele se encontrava era bastante desagradvel.

Assim que seu criado de quarto se recolheu, o duque vestiu uma camisa branca, que pegou em uma gaveta. No era uma camisa engomada, como a que usara no jantar, e 
deixava-o mais  vontade. Vestiu em seguida uma cala preta e justa e amarrou um leno de seda ao pescoo, com as pontas para dentro da camisa. Por fim, ps um palet 
de veludo, enfeitado com gales, e calou chinelos de veludo bordados com seu monograma e encimadas por uma coroazinha.

Era bem mais prudente ir conversar com Anastcia completamente vestido. Seria arriscado ir com roupas de dormir e um robe.

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O duque abriu a porta de seu quarto com cuidado, sem fazer barulho.

Como esperava, apenas algumas velas ardiam nas arandelas de prata. O hall estava na penumbra, e se podia ver o contorno da escada. Seria impossvel o criado que 
estava a postos, sentado em uma poltrona no hall, ver o que acontecia no piso superior, a menos que ele se levantasse e fosse at a balaustrada.

Seguindo bem rente  parede, o duque foi andando devagar e silenciosamente, at chegar  porta do quarto de Anastcia. Por um momento, hesitou. Talvez fosse tolice 
ir at ela. Ao mesmo tempo, seria tolice maior permitir que ela fosse ao dele. Se isso acontecesse, por mais que ele argumentasse, no teria como escapar daquela 
mulher insistente e possessiva.

Com os lbios apertados, formando uma linha fina, ele abriu a porta.

Ao fazer isso, percebeu que outra porta perto do patamar tambm se abria, quase sem rudo.

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CAPITULO IV

Anastcia estava sedutora, com os cabelos negros caindo sobre os ombros e os olhos verdes brilhando. Ele achou graa de ela estar usando um colar de prolas negras.

Lembrou-se, ento, da verdadeira loucura de Anastcia por jias, o que a fazia us-las mesmo nos momentos mais ntimos, mesmo quando fazia amor.

Por um instante, relembrou ocasies em que a vira usando, alm de prolas negras, um colar de esmeraldas ou de rubis, que acentuavam a brancura da pele de magnlia.

Anastcia no se deitara ainda. Estava sentada na beirada da cama. A camisola difana pouco escondia de seu corpo escultural.

O duque fechou a porta, mas no se dirigiu ao interior do quarto, ao encontro dela. Parado no hall de entrada, ao lado da porta, disse:

- S vim at aqui porque voc fez chantagem comigo. No tenho, porm, a menor inteno de ficar. Como j disse antes, ser um grande erro tentarmos voltar ao passado.

Anastcia sorriu, depois disse com voz suave:

- Voc  um belo homem e muito desejvel, mon cher. Acho que sua posio combina muito com voc.

- Tem que me ouvir - disse o duque pacientemente. Continua bela e sedutora como nunca, mas agora, que se casou com um homem to distinto, deve agir com dignidade 
e respeitar seu marido.

- J lhe disse que a nica pessoa capaz de me fazer mudar ser voc - disse Anastcia com voz suave e sedutora. -

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Lembra-se, Tristram, de como voc era ciumento e chegava a ser deliciosamente brutal quando ficava zangado comigo?

Inquieto, o duque deu alguns passos e ficou de p junto  lareira, que estava acesa. Embora fosse quente durante o dia,  noite costumava esfriar.

Mesmo ali, junto  lareira, ele no sentia o calor do fogo.

- Vim ao seu quarto porque me forou a isso - ele disse, depois de alguns segundos. - Agora vou voltar aos meus aposentos. Se voc quiser permanecer em Lynd como 
minha convidada, s lhe peo que se lembre de que  casada.

- Oh, querido, como duque voc  muito cheio de pompa. Eu gostava muito mais de voc quando era um jovem soldado sem vintm.

- Mas recusou meu pedido de casamento.

- O que foi estupidez de minha parte. Agora o reconheo e lamento com muita humildade e amargura, Tristram. Foi uma infelicidade t-lo perdido.

O duque no respondeu, e depois de um momento ela continuou:

- Mas ainda sou uma mulher e voc  um homem. Sei que, se eu o tocar novamente, as chamas que nos consumiam to arrebatadoramente ardero ainda.

- No acredito - disse o duque secamente. - Tambm no tenho inteno de descobrir isso, Anastcia.

Ela se ergueu da cama.

Enquanto se aproximava do duque, este manteve-se imvel, pensando no que iria fazer. Sabia que, se sucumbisse aos encantos daquela mulher, ambos estariam perdidos.

Lembrava-se muito bem de como ela era ardente.

Por outro lado, o conde de Calverton no devia admitir o menor deslize de sua linda esposa. Ele certamente defenderia sua honra por todos os meios ao seu alcance, 
caso suspeitasse que ela no lhe fosse fiel. Se fosse apanhado ali, o duque seria desafiado para um duelo.

Apesar de no estar mais na moda na Inglaterra duelar,

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algum marido acertava dessa forma as diferenas com o amante de sua mulher.

Mas havia a possibilidade de o conde divorciar-se da esposa, acusando-a de infidelidade e ao duque de ser o causador da separao dos cnjuges. Isso seria um escndalo. 
O processo seria moroso, caro e teria que ser apresentado no Parlamento.

Anastcia envolveu-lhe o pescoo com os braos. Subitamente, ele descobriu, surpreso e quase sem poder acreditar, que aquela mulher linda e sedutora no mais o atraa.

No podia explicar o que acontecera, mas o fato era que no sentia mais nada por Anastcia, mesmo estando ela to excitante e arrebatadora.

A camisola transparente no lhe escondia a nudez, e revelava que ela no perdera as curvas dos seios firmes e a delicadeza da cintura minscula. Ela ainda conservava 
os mesmos quadris magros e curvos que tanto o haviam deleitado no passado.

Todavia, o corpo do duque no reagia nem vibrava de forma alguma queles encantos. Pensou com desdm que todos os esforos dela para seduzi-lo eram inteis.

A servido na qual ela o mantivera por tanto tempo depois da separao de ambos j se acabara.

Ele havia passado a detestar as mulheres, porque Anastcia ficara impregnada em seu sangue e ele no conseguia libertar-se dela.

Agora, evocava as noites longas e insones em que se revirava, sentindo o calor do prprio corpo, que latejava de tanto desejo, de tanto ansiar por Anastcia.

Naquele momento, a extica fragrncia de seu perfume francs, da qual ele se lembrava to bem, chegava at ele. Aqueles lbios convidavam os dele, e o duque podia 
sentir a paixo que ardia em Anastcia. Mas o abrao dela foi como o contato com um pedao de gelo.

- Mon cher, je t'adore! - sussurrou Anastcia, usando as mesmas palavras que ele j ouvira tantas vezes e das quais sentira tanta saudade.

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Mas a reao dele naquele momento era a mesma que se ela lhe tivesse pedido para passar o sal.

O duque ergueu os braos, segurou com firmeza os pulsos da condessa e afastou-lhe as mos de seu pescoo.

- Sinto muito - ele disse calmamente. Ela o encarou demoradamente, incrdula.

- Est me dizendo que eu nada significo para voc?

- O passado est morto. Seria um erro, um lamentvel erro voltarmos atrs.

- Agora poderemos ficar juntos, e voc me amar como antes.

O duque sorriu. Havia uma curva amarga em seus lbios.

- Est falando como uma criana. As coisas jamais acontecem como antes. No que me diz respeito, no poderei am-la da mesma forma. Algo morreu. Acabou.

- Eu farei com que me deseje de novo! - disse ela ardentemente.

Anastcia se atirou sobre ele. Assim que o duque estendeu os braos para evitar que ela o prendesse novamente, algum girou a maaneta da porta.

Foi tudo to repentino e inesperado, que Anastcia e o duque ficaram imveis, olhando para a fechadura dourada.

Pela luz do candelabro ao lado da cama, ambos viram a maaneta girar diversas vezes e ouviram uma voz fcil de ser reconhecida:

- Sou eu, Anastcia, deixe-me entrar!

O duque olhou para a condessa e viu uma expresso de terror refletir-se em seus olhos. Se ele no estivesse tambm em situao crtica, teria rido.

Constatou ento como os protestos de amor da condessa pouco significavam quando postos  prova.

- Mon dieu!  meu marido!

Os lbios dela articularam as palavras, mas no houve som algum.

AS batidas na porta tornaram-se mais fortes, indicando a impacincia do Conde

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Abra a porta! - disse o conde, em voz bem mais alta do que antes.

O duque olhou ao redor, e pousou os olhos na porta que levava para o quarto de vestir. Assim que pensou em correr para l, lembrou-se de que os criados certamente 
iriam levar a bagagem para aquele quarto. No poderia escapar por ali.

Quase simultaneamente, olhavam ambos para as janelas. Havia duas delas no quarto. Chegavam at o cho e davam para uma sacada.

O olhar de Anastcia suplicava que o duque sasse por uma delas.

Enquanto ele caminhava sem fazer barulho sobre o tapete espesso, o conde bateu na porta novamente.

O duque ouviu Anastcia representar com perfeio ao dizer com voz sonolenta:

- Quem ... ? O que quer?

- Sou eu, Anastcia!

Ela deu um pequeno grito, fingindo alegria, e exclamou:

- Hugo!

- Sim, querida, abra a porta!

Ela deu outro gritinho de satisfao, exclamando:

- Voc voltou!

Atrs das cortinas, o duque correu o vidro da janela georgiana e saiu para a sacada.

No tempo da Regncia, o terceiro duque havia acrescentado s janelas da parte lateral da casa sacadas de ferro trabalhado. No queria estragar a simplicidade do 
estilo Adam da fachada da casa. Assim, visto dos jardins e dos fundos, o prdio tinha uma aparncia bem mais enfeitada.

As sacadas eram pequenas. Infelizmente, a sacada do quarto do duque ficava longe daquela onde ele se achava. Mesmo assim, se quisesse ir  sacada mais prxima, teria 
que saltar uma distncia de um metro ou pouco mais. Se casse, seria uma queda de uns doze metros de altura. Felizmente, ele fora bom desportista no seu tempo de 
colgio.

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Com uma curva sarcstica nos lbios, ele avaliou a distncia, sabendo que, com a pouca claridade da luz da lua, poderia cometer um erro. Se isso acontecesse, poderia 
morrer ou ficar bastante machucado.

Mas era a nica chance que tinha de sair dali. Ouviu Anastcia exclamar, ao abrir a porta, com voz de esposa feliz:

- Querido, que adorvel surpresa! Mas o que aconteceu?

- Houve um acidente com a carruagem a umas dez milhas daqui. Um campons retardado surgiu de repente em um cruzamento e chocou sua carroa com a nossa carruagem, 
quebrando uma das rodas. No tive outro jeito seno convencer o vigrio do lugarejo a emprestar-me seu trole.

- Mas que coisa terrvel! Ah, mon cher, estou to feliz por ver que no est ferido! De qualquer modo, estava sentindo muita falta sua por ter que dormir sozinha.

O duque ouvia o suficiente. Observando a hipocrisia de Anastcia, pensou com certa amargura em como pudera um dia acreditar nela.

Enquanto ela conversava com o marido, Tristram tirou os chinelos e, segurando-os em uma das mos, subiu na grade de ferro trabalhado; com a mo livre, apoiou-se 
na parede, calculou a distncia, prendeu a respirao e saltou.

Para sua alegria, caiu bem no centro da outra sacada, e calou os chinelos. Graas  vida rdua que levara, no perdera a agilidade.

Agora, era preciso sair da sacada. O conde poderia, por azar, olhar pela janela.

O mais silenciosamente possvel, ele entrou no quarto, pois a janela estava aberta.

Algum dormia naquele aposento. Tendo sido treinado no Exrcito a andar silenciosamente, ele calculou que poderia atravessar o quarto sem dificuldade, ajudado pela 
luz do luar. Chegaria  porta sem perturbar o sono daquele hspede, e logo estaria no corredor.

Realmente, caminhou sem fazer barulho at o centro do quarto, que era bem grande. Subitamente, a porta abriu-se e

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Lucy Branston entrou, tendo na mo um grande candelabro com trs velas acesas.

O duque ficou imvel e olhou para ela, que disse, com uma voz que revelava espanto:

Alteza! Estou deveras atnita! O que faz aqui?

S ento o duque percebeu que era a sobrinha de lorde Branston quem dormia ali na cama. Katerina despertou ao ouvir a voz da tia, e sentou-se na cama.

- O que est acontecendo? O que foi, tia Lucy? Mesmo ouvindo a voz alarmada da sobrinha, lady Branston nem virou a cabea. Nos olhos dela, que se fixavam no duque, 
havia fria. Rapidamente, ele compreendeu o que havia acontecido.

Lady Branston, que certamente estivera no quarto dele, no o vendo l, ficara intrigada, sem saber aonde ele teria ido. Ao ouvir o conde chegar, e imaginando que 
ele estava no quarto da condessa, achou que o quarto da sobrinha seria o nico modo de ele escapar.

"Todas as mulheres so vingativas", pensou.

Lucy estava sedutora, e ele imaginou que era por causa dele. Usava um nglig que combinava com o azul de seus olhos, todo enfeitado com uma profuso de rendas finssimas. 
Seus cabelos dourados haviam sido escovados at brilharem como o ouro da chama das velas.

O duque no teve dvidas de que, se tivesse ficado esperando por Lucy em seu quarto, como tencionava, teria tido momentos maravilhosos.

Todavia, naqueles lindos olhos, lampejos de raiva refulgiam. E aqueles lbios no eram, no entanto, convidativos como quando os beijara h algumas horas.

Lady Branston esperava por uma resposta.

Com uma tranquilidade que estava longe de sentir, o duque disse:

- Receio ter cometido um engano. No sabia que este era o quarto de sua sobrinha.

Achando que estava se saindo muito bem, ele prosseguiu:

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- Quando ouvi o conde de Calverton voltar to inesperadamente, pensei que este fosse o quarto de vestir do conde. Esqueci que ele ocupava o outro quarto, com sua 
esposa.

- No espera, certamente, que eu acredite nisso - disse Lucy acidamente.

O duque pensava em apresentar um argumento que pudesse ser convincente, quando a figura corpulenta de lorde Branston, que vestia um robe de l, surgiu atrs de Lucy.

- O que est acontecendo, querida? - perguntou lorde Branston, aborrecido. - Acordei com umas batidas  porta de algum, e percebi que voc no estava deitada ao 
meu lado.

Por um momento, fez-se um silncio constrangedor.

Ento, antes que o duque pudesse dizer qualquer coisa, Lucy explicou:

- Eu tambm dormia tranquilamente, e acordei com as mesmas batidas que voc ouviu; pensei que fosse no quarto de Katerina, e quando vim ver o que era, para meu grande 
espanto, verifiquei que Sua Alteza estava aqui!

- Sua Alteza? - perguntou, incrdulo, lorde Branston, caminhando para o meio do quarto.

Como ele se achava atrs da esposa, a luz das velas o ofuscava. Ele no havia percebido que aquele homem era o duque.

- O que se passa? Meu Deus! O que est acontecendo? Lorde Branston olhou para o duque, e depois para Katerina,

que continuava sentada na cama, com os cabelos louros caindo em suaves ondas sobre os ombros. Seus olhos, normalmente grandes, pareciam ainda maiores enquanto olhava 
atnita para aquela cena inusitada.

- Posso explicar facilmente a minha presena aqui - disse o duque a lorde Branston. - Quando eu soube que o conde havia voltado inesperadamente, vim ver se sua bagagem 
fora trazida para seu quarto de vestir. Achei que era este o quarto, mas enganei-me; devia ter aberto a porta seguinte.

Falava devagar e claramente, como se dirigisse a uma criana. Antes que o marido pudesse retrucar, lady Branston disse:

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-  uma explicao plausvel, mas o fato  que o encontrei no meio da noite no quarto de uma jovem inocente.

Acabando de falar, Lucy achou que o candelabro pesava muito e colocou-o sobre a cmoda.

- Bem, claro - comeou lorde Branston devagar e meio relutante. - Devo aceitar sua explicao, Lyndbrooke, mas s espero que ningum mais saiba que esteve aqui, 
caso contrrio, a reputao de minha sobrinha ficar arruinada.

- Estou ciente disso - retrucou o duque -, e apresento humildemente as minhas desculpas  srta. Darley. Na verdade, eu estava meio sonolento quando fui informado 
da chegada do conde, e meu crebro no estava funcionando claramente.

O duque forou um sorriso e olhou para lady Branston, esperando que aquilo a satisfizesse. Entretanto, ela continuava zangada. Ele podia at sentir a fria e o cime 
daquela mulher vibrando na direo dele.

- Ento est tudo bem - disse lorde Branston. - Agora vamos todos dormir, se conseguirmos. Admito que estou extremamente cansado.

Dizendo isso, ele se virou para sair do quarto. Os olhos do duque encontraram os de Lucy novamente, e ele notou neles uma mudana de expresso que no compreendeu. 
Era como se ela, subitamente, pensasse em algo que a deixasse extremamente feliz e lhe aplacasse a ira.

Assim que o marido chegou  porta, Lucy disse em voz baixa e suave:

- Meu querido, acho que est sendo muito ingnuo em aceitar a explicao de Sua Alteza. De minha parte, achei estranho ele ter tido tempo de vestir-se to elegantemente, 
se estava mesmo dormindo como disse, ao ser informado da chegada do conde, que deve ter ocorrido h poucos minutos, pois voc mesmo disse que acordou com as batidas 
 porta.

- O que est insinuando?

- Voc sabe dessas coisas melhor do que eu - disse a esposa com voz doce. - No acha que o duque deve reparar o mal que fez  sua sobrinha? Quero dizer, a reputao 
da pobre

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e inocente Katerina ficar comprometida. Afinal, deve pensar nisso.

Tanto o duque como lorde Branston ficaram pasmados. Foi este ltimo quem quebrou o silncio pesado que se fizera, compreendendo aonde a esposa queria chegar:

- Entendo seu ponto de vista, querida, mas tenho certeza de que, nestas circunstncias, Lyndbrooke vai agir como um cavalheiro.

O duque susteve a respirao, depois disse:

- Este no  o momento apropriado para discutirmos isto, Branston. Amanh o faremos. Agora,  de suma importncia que ningum, repito, ningum, a no ser ns quatro, 
venha a saber do que aconteceu aqui esta noite.

Ele falou com autoridade, olhando para Lucy. Ela lhe sorriu, mas havia em seus olhos a mesma expresso indecifrvel.

Lorde Branston, parecendo ainda mais embaraado do que antes, disse:

- Tem toda a razo. Falaremos sobre o assunto amanh. O mais importante  o sigilo. Ningum mais saber do que aconteceu, Lyndbrooke.

Ele saiu do quarto, e o duque o seguiu at o patamar. Lucy olhou para Katerina, que continuava sentada na cama, confusa, emudecida, sem entender a razo de todo 
aquele tumulto em seu quarto.

Os olhos de Lucy relampejavam sobre Katerina. Vendo a beleza e a juventude da sobrinha, seus lbios se comprimiram. Fez meno de dizer qualquer coisa, mas permaneceu 
calada.

Pegando o candelabro que havia trazido de seu quarto, foi at a porta, fechou-a e seguiu o marido, que voltava para a cama.

Assim que colocou o candelabro sobre a penteadeira, Lucy disse, em voz suave, reservada para as ocasies em que lisonjeava o marido para conseguir o que desejava:

- Voc est muito certo, Arthur! Como sempre, voc agiu corretamente. Fez o duque entender que deve uma reparao

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a Katerina, por estar no quarto dela daquela maneira inusitada.

Lorde Branston ficou olhando para a esposa demoradamente.

- Est mesmo querendo dizer que ele tentava seduzir a garota?

- O que ele fazia ou deixava de fazer, querido, no  a questo. Como voc sabe, a reputao de sua sobrinha estar arruinada para sempre se algum ficar sabendo 
deste vergonhoso episdio. Voc pode imaginar que comentrios fariam sobre uma jovem, mesmo sendo inocente, se viessem a saber que um homem estivera em seu quarto 
no meio da noite?

- No acredito que Lyndbrooke, que s veio a conhecer Katerina esta tarde, tivesse qualquer inteno menos digna!

- Mesmo assim, querido, a pobre filha de sua irm teria que pagar o preo! - disse Lucy, afastando uma mecha de cabelos da testa. - Katerina seria tratada por todos 
na sociedade como uma mulher de m reputao, se, porventura, se ouvisse um sussurro que fosse sobre o fato de o duque ter sido encontrado em seu quarto  uma hora 
da manh.

Lorde Branston franziu a testa, demonstrando preocupao, e ficou pensativo. Lucy continuou:

- Voc demonstrou ser um homem ponderado ao dizer que o duque certamente agir como um cavalheiro. Adoro voc por ter sempre atitudes sensatas.  claro que o duque 
deve se casar com sua sobrinha, e quanto antes, melhor, caso as coisas fiquem piores do que esperamos.

A voz chocada de Lucy ao dizer as ltimas palavras muito colaborou para reforar o que ela insinuava. Pela expresso do rosto do marido, ela teve certeza de que 
ele havia captado exatamente o que ela esperava dele.

Lorde Branston, entretanto, fez uma ltima tentativa em defesa do duque.

- Se todos ns ficarmos de boca fechada, e isso significa no dizer nada a ningum, a ningum, compreende, no h razo de algum saber o que aconteceu.

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Lucy riu, e sua risada cristalina, que ela treinava desde que deixara os bancos escolares, ressoou pelo quarto.

- Meu querido Arthur, voc  um homem bondoso, e quer sempre desculpar todo mundo! Mas, sendo to esperto, deve ter percebido que havia criados trazendo as malas 
do conde para o andar superior. Eles devem ter visto ns, como eu os vi, ao sair do quarto de Katerina. Com certeza, eles acharam estranha, muito estranha toda aquela 
movimentao.

Lucy fez um gesto com as mos ao dizer:

- Se um criado ficar sabendo de alguma coisa, l embaixo tambm sabero logo pela manh. E o que voc acha que os criados de quarto e as aias que os convidados trouxeram 
consigo diro aos seus amos e amas?

Fez silncio. Ento lorde Branston, parecendo inquieto, disse:

- Tem razo, Lucy. Falarei com Lyndbrooke pela manh. Agora quero dormir.

Ele se virou de lado e fechou os olhos. Lucy, porm, antes de apagar as velas, olhou-se rapidamente no espelho. Ela havia sido esperta, muito mais esperta do que 
se imaginara capaz. Havia conseguido livrar-se daquela garota cansativa.

Ao mesmo tempo, garantia para o futuro ser bem-vinda em Lynd. Ah, seria assdua naquela manso de seus sonhos, e no precisaria mais estar fazendo arranjos, tramando 
e rezando para ser convidada pelo duque para uma de suas festas.

Lucy no ignorava o que o duque sentia por ela. Ao v-lo dirigir-se ao quarto de Anastcia, fora acometida por uma violenta e incontrolvel crise de cime, uma crise 
to intensa como jamais tivera antes. Se pudesse, teria matado aquele homem por hav-la tratado daquela forma.

O duque sabia muito bem que ela iria ao quarto dele assim que seu marido dormisse. De agora em diante, entretanto, no havia pressa nem necessidade de contar as 
horas em que teria o privilgio de hospedar-se em Lynd.

Assim que Katerina estivesse casada - e o duque no se esquivaria ao seu dever -, ela tambm teria o duque para si. Sendo um homem inteligente, ele entenderia que 
tudo seria

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muito mais fcil para ambos. Haveria dezenas, centenas de oportunidades para ambos ficarem a ss.

Ningum jamais suspeitaria que ela no era naquela casa outra coisa seno a devotada tia da duquesa.

"Nada poderia ser melhor! Esse casamento ser tambm o fim dessa serpente toda enfeitada, a condessa de Calverton", pensou Lucy.

Ela j percebera que Anastcia era uma mulher perigosa, e notara o modo como ela olhara para o duque ao dizer-lhe boa-noite. Entretanto, no tivera medo do poder 
de atrao da condessa at ver o duque se dirigir ao quarto dela. Nesse instante, se pudesse, teria matado Anastcia sem hesitao.

Quando vira o duque no quarto de Katerina, logo deduziu que aquele fora o nico modo de ele escapar do conde. Mas a maneira elegante como ele estava vestido, o leno 
de seda ao redor do pescoo, perfeitamente amarrado, o casaco de veludo impecvel, tudo indicava que ele no se vestira s pressas ao ouvir as batidas inesperadas 
do conde  porta.

Era mais do que evidente que Anastcia no tivera sucesso em sua tentativa de levar o duque para a cama.

Todo esse raciocnio fez a raiva de Lucy desaparecer. A ideia que tivera era como uma luz na escurido. Katerina era inocente, sem experincia alguma e, no restava 
dvidas, muito tola. Se ela desposasse o duque, a vida da tia estaria numa posio muito melhor e mais segura do que no momento.

Quando lady Branston foi para a cama, o marido j dormia profundamente. Ela ficou ali na penumbra, enlevada, imaginando as festas deslumbrantes que convenceria o 
duque a oferecer em Lynd, onde seria, sem dvida, a figura central.

Os convidados seriam os nobres mais importantes da corte; at mesmo o prncipe de Gales daria a honra de sua presena. Todos admirariam e adulariam a tia da duquesa 
de Lyndbrooke. Ela j antegozava sua asceno social. Seria maravilhoso!

Finalmente, Lucy se obrigou a relaxar. Se no dormisse o suficiente, no estaria linda no dia seguinte.

Tudo seria perfeito da para diante. Quanto antes o duque

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e Katerina se casassem, melhor. Isso seria vantajoso para todos, especialmente para ela.

Dizendo isso a si mesma, Lucy adormeceu.

O duque no conseguiu dormir.

De p, junto  janela, alheio  beleza da noite, imaginava como conseguiria escapar da armadilha que lhe fora preparada.

Ao sair para ir ao quarto de Anastcia, jamais esperara aquele resultado desastroso.

Pelo olhar de determinao de Lucy Branston, ele sabia que ela iria pressionar o marido e exigiria que ele, por sua vez, insistisse no casamento da sobrinha com 
ele. Parecia no haver como fugir  situao.

Quanto a Lucy, seu argumento era de muito peso. No havia dvida de que, se soubessem que ele ou outro homem qualquer tivesse sido encontrado no quarto de uma jovem 
solteira durante a noite, os comentrios maldosos fervilhariam, e todos s teriam uma explicao para o fato. A sociedade s receberia essa jovem atravs do casamento.

O duque esperava que ningum viesse a saber do ocorrido. Todavia, acreditava que era impossvel confiar um segredo a uma mulher.

"Haver comentrio, claro que haver!"

Sua preocupao era com os seus sentimentos, e no com os de Katerina. Havia fugido do casamento durante anos e resistira  presso de sua av e de outros parentes 
mais velhos, que s se preocupavam com um herdeiro, e por isso viviam insistindo para que ele se casasse.

Faria tudo o que pudesse para evitar o casamento com uma jovem que mal conhecera.

Katerina era jovem demais, e no devia ter afinidade nenhuma com ele. Tudo o que acontecera fora um terrvel equvoco. E tudo porque Anastcia, mais uma vez, conseguira 
com seus ardis torn-lo infeliz.

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"Ah, que prazer seria estrangular aquela mulher!", ele pensou.

Lembrou-se da infelicidade que Anastcia lhe causara no passado. Agora, quando sua vida era um verdadeiro mar de rosas, ele havia, mais uma vez, como uma bruxa malvada 
das histrias de fadas, conseguido jogar sobre ele uma maldio. Era difcil acreditar que tudo aquilo estivesse acontecendo.

"Como pude me envolver com uma mulher como Anastcia?"

Essa era uma pergunta que todo homem fazia a si mesmo em alguma ocasio de sua vida, e ele no era exceo.

"Vou tentar fazer Branston ver as coisas claramente e com bom senso", pensou, indo finalmente para a cama.

Sabia que Lucy empurraria o marido na direo oposta. Portanto, havia para ele pouca chance de encontrar uma sada que no fosse a de, como dissera lorde Branston, 
agir "como um cavalheiro".

Quando amanheceu, o duque estava de pssimo humor. Os criados que o atendiam sabiam que aquela calma era aparente. Ele parecia inabalvel, mas havia fria em seu 
olhar, e cada palavra que ele proferia soava como o estalar de um chicote.

Ao descer para o breakfast, o duque ficou sabendo que o conde de Calverton havia partido bem cedo. Ele tomara emprestado dos estbulos uma carruagem e cavalos, deixando 
muitas desculpas por ter que fazer isso.

Anastcia estava novamente sozinha, e seria preciso dar um jeito de livrar-se dela.

Depois do breakfast, o duque foi para a biblioteca sem ter visto nenhum dos seus hspedes. No demorou muito, lord Branston foi procur-lo l.

- Tenho que falar com voc, Lyndbrooke. Est ocupado?

- Nada importante - respondeu o duque secamente.

Ele se levantou da escrivaninha, onde estivera lendo algumas cartas que o secretrio j deixara abertas para ele. Indo at

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lorde Branston, o duque indicou-lhe uma poltrona confortvel e sentou-se em outra, diante de seu hspede.

Lorde Branston vivera longos anos na corte e fizera uma carreira brilhante de estadista. Entretanto, apesar de seu traquejo, parecia naquele momento bastante embaraado.

Achando que devia ajudar o amigo, o duque comeou:

- Sinto muito o que aconteceu, Branston, mas sei que me conhece o suficiente para saber que eu nada fazia que pudesse aborrecer ou prejudicar sua sobrinha.

- Claro que aceito sua palavra e no duvido dela. Ao mesmo tempo, ns dois sabemos que, se por infelicidade algum mais ficar sabendo que voc esteve no quarto de 
Katerina, a garota estar liquidada, absolutamente liquidada aos olhos da sociedade. Eu amava a minha irm. Foi uma pena ela fazer um mau casamento. Seu marido no 
estava  altura dela, mas sempre soube que ambos viveram muito felizes. Tenho que fazer o melhor que posso por sua filha.

Fez-se um silncio constrangedor antes que o duque dissesse:

- Suponho que esteja pensando que eu deva me casar com ela.

- No vejo outra alternativa. Como disse minha esposa, mesmo que ns possamos manter segredo sobre o que aconteceu, os criados que traziam a bagagem de Calverton 
faro comentrios. Voc no ignora que grande parte dos mexericos que nos trazem problemas vem das conversas dos criados.

- Receio que voc esteja certo - concordou o duque com uma nota de desespero na voz.

- Minha sugesto e, naturalmente, de minha esposa,  que voc e Katerina se casem o mais depressa possvel e partam em lua-de-mel antes mesmo que algum saiba que 
esto noivos.

O duque olhou para lorde Branston sem esconder o espanto.

- Por que sua esposa sugere isso?

Antes de ouvir a resposta, o duque j sabia o que Lucy tramava. Ela era o crebro que se encontrava por trs de tudo aquilo. Temendo que ele pudesse tirar o corpo 
fora, procurava prend-lo o quanto antes.

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- Parece a coisa mais sensata a fazer - respondeu lorde Branston, como se ele sozinho fosse o idealizador do plano, quando, na verdade, repetia as palavras de Lucy.

- Katerina acaba de perder os pais - continuou lorde Branston -, portanto, no seria de estranhar se a cerimnia de casamento fosse simples, dispensando os aparatos. 
Alm disso, se vierem a saber do que aconteceu, as pessoas ficaro imaginando se minha sobrinha est ou no esperando beb. O melhor ser vocs se casarem imediatamente. 
Assim, os aborrecimentos sero evitados.

Lorde Branston fez uma pausa, depois disse, em tom jovial:

- Penso em voc, Lyndbrooke, no apenas em minha sobrinha.

- Obrigado - disse o duque com sarcasmo, embora soubesse que lorde Branston nem iria perceber a ironia.

- Voc tem uma capela aqui na propriedade, e suponho que tenha um capelo. Portanto, pode organizar tudo discretamente. Quando o casamento for um fato consumado, 
o que podero dizer?

- Sem dvida, o que podero dizer?

Fazendo um esforo sobre-humano para se manter controlado, o duque foi at  janela. Admirou a beleza da luz do sol que dourava o lago. Tivera cinco anos de felicidade 
ali naquele paraso, e agora essa felicidade lhe seria arrebatada. Tera que repartir aquela maravilha com uma garota aborrecida e ignorante, uma tola que, sem dvida, 
pensaria apenas em ser duquesa e em adornar-se com as jias da famlia.

Talvez fosse melhor sair pelo mundo, como havia feito no passado. Iria conhecer lugares estranhos, e, enquanto estivesse fora, tudo se dissiparia, e o incidente 
perderia o interesse e cairia no esquecimento.

Pensando nisso, o duque se lembrou da expresso dos olhos de Lucy. Ele vira naqueles olhos cime e uma raiva vingativa, alm de algo indefinvel que no sabia explicar 
o que era. Adivinhava, com sua aguda percepo, que aquela mulher astuta o queria para si. Ele no estaria se casando com Katerina. De

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acordo com o jogo de Lucy, estaria preso a uma garota aborrecida, e tambm  ambiciosa tia.

O duque tinha o olhar fixo num ponto qualquer a distncia, mas no via a beleza do gramado muito verde e bem-cuidado, nem tinha olhos para as ris amarelas que cercavam 
o lago, tampouco notava as guas que tremeluziam ao sol. Via, sim, trs mulheres que o ameaavam. Todas elas queriam arruinar sua vida.

Anastcia, com seus olhos verdes e brilhantes, ardia de desejo.

Lucy, uma linda mulher de beleza convencional, seduzia-o com um sorriso tentador.

Ao lado das duas, a garota sem rosto, inexpressiva, desejava tornar-se sua esposa.

As trs queriam prend-lo, queriam pr-lhe os grilhes, as cadeias do matrimnio.

Era preciso fugir, sair dali, voar num tapete mgico e ir para o outro lado do mundo, onde jamais seria encontrado.

Mas ele era um duque, um cavalheiro. Assumiria sua responsabilidade. No ousaria ofender ou insultar lorde Branston. Faria exatamente o que se esperava dele.

Afastando-se da janela e virando-se para lorde Branston, com voz calma e admiravelmente controlada, o duque disse:

- Farei exatamente o qu sugere. Quando todos os meus hspedes tiverem partido, na segunda-feira, providenciarei tudo para que meu casamento com sua sobrinha seja 
realizado o mais depressa possvel.

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CAPTULO V

Depois que seus tios e o duque saram do quarto, Katerina tentou entender o que havia acontecido. Era inacreditvel que o duque pudesse ter entrado pela janela. 
Mais enigmtico ainda era ele ter precisado agir daquela forma. Nada tinha sentido.

Ainda mais estranho era que tia Lucy parecera to zangada com o que ocorrera. E as coisas que dissera, que deixaram o duque furioso!

Sendo muito perceptiva, Katerina notara a fria do duque e a maldade da tia. Entretanto, o motivo de tudo aquilo fugia ao seu entendimento.

Katerina ouvira a conversa dos trs, que, por mais incrvel que pudesse parecer, dizia respeito a si mesma. Sendo jovem e inexperiente, no conseguia alcanar a 
gravidade da situao, mas uma coisa estava bem clara: a tia estava achando extremamente repreensvel o duque estar no quarto de uma jovem no meio da noite. Mas 
por que tudo aquilo, se o dono daquela casa no tinha o menor interesse em uma jovem debutante?

Se no fosse a tia entrar no quarto, Katerina nem teria percebido que o duque passara por ali.

As perguntas martelavam em sua cabea. Por que tudo aquilo? Por que o duque precisara entrar pela janela? Por que a raiva da tia?

Confusa, Katerina foi at  janela, abrindo mais as cortinas. Olhou ento para o cu estrelado e para a lua. Felizmente, a beleza da noite f-la esquecer quase por 
completo a confuso de alguns momentos atrs.

Percebeu, ento, que havia luzes no quarto vizinho, e ouviu vozes tambm. Subitamente, lembrou-se de que o duque dissera

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que o conde de Calverton voltara para Lynd inesperadamente. Como um relmpago, passou-lhe pela cabea a cena que parecia ser a explicao de tudo: a chegada inesperada 
do conde. Era como se peas de um quebra-cabea se juntassem. Katerina acabou deduzindo o que certamente havia acontecido.

O duque escapara do quarto da condessa pela sacada, e o jeito de sair dali era pela sacada vizinha, ou seja, a do quarto de Katerina.

S ento se lembrou de ter visto a condessa de Calverton, que chegara tarde, depois do jantar. Ela havia descido logo depois de ter chegado, surpreendentemente vestida 
e toda enfeitada de jias.

Katerina se sentira atrada pela beleza extica de Anastcia e admirara durante longo tempo aquela mulher russa, pois era diferente das outras.

Tambm no escapara  sua observao que a condessa olhara para o duque de tal maneira que revelava que, da mesma forma que Lucy, estava apaixonada por ele.

Entretanto, havia ainda perguntas sem respostas. Por que teria o duque ido  sute da condessa? O que poderia ter ido dizer a ela que no pudesse ter dito quando 
ela chegara?

Certamente, s havia uma resposta: o duque tambm devia estar apaixonado por Anastcia.

Subitamente, Katerina fechou as cortinas, deixando l fora toda a beleza das estrelas e a luz do luar prateando o jardim. Voltando para a cama, deitou-se chocada, 
muito chocada, com a descoberta.

Como poderia um homem to poderoso e importante estar apaixonado pela esposa de outro homem?

"Isso no  correto", pensou ela. " algo muito errado, e certamente mame nem quer que eu pense mais nisso."

Entretanto, por mais que se esforasse, o belo rosto do duque no saa de seu pensamento. Ele era o homem mais bonito que ela j vira. No imaginava que um homem 
pudesse ter tanta beleza.

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Recordando como os olhos verdes de Anastcia se haviam fixado no duque de maneira at embaraosa, Katerina no duvidava que aquela mulher era perversa.

Restava ainda uma pergunta que atormentava a jovem: o que teria tia Lucy que ver com toda aquela confuso? O duque havia explicado que havia entrado no quarto por 
engano. E se ele viera mesmo verificar se haviam trazido a bagagem do conde em ordem, por que tanto mistrio? Por que a tia fizera aquele estardalhao? Por que havia 
dito que o duque devia reparar o que fizera? Por que mencionara que ele comprometera a reputao de uma jovem inocente?

Tio Arthur parecera muito embaraado ao ouvir a esposa dizer aquilo, e respondendo que o duque teria que agir como um cavalheiro. O que "implicaria comportar-se 
como um cavalheiro"?

Tudo o que vira e ouvira danava confusamente na cabea da pobre jovem.

Intrigada e exausta, ela adormeceu.

Katerina acordou cedo.

Embora desejasse levantar-se e sair, teve receio de que a tia talvez quisesse v-la primeiro.

A criada informou-lhe que o breakfast lhe seria trazido ao quarto, pois apenas os cavalheiros desciam para fazer essa primeira refeio na copa.

- Suponho que tenha se levantado cedo para ir ver a corrida ponto a ponto - disse Emily.

- Ponto a ponto? - perguntou Katerina, surpresa. Ouvira seu pai falar nessas corridas, e tambm nas de obstculos, mas no esperava assistir a uma delas em Lynd.

- Sua Alteza tem pistas prprias para essas corridas, senhorita.  muito excitante, e todos os que moram nas redondezas vm assistir a elas. A corrida ponto a ponto 
no  como a de obstculos, que Sua Alteza promover mais tarde e da qual ele mesmo participa. Numa corrida ponto a ponto, podem participar todos os cavalheiros 
que tiverem um cavalo. H desafios entre

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os fazendeiros, e a multido aplaude os favoritos.  muito divertido!

- Espero poder ir ver a corrida.

- Claro que vai poder, senhorita! Sua Alteza d prmios aos vencedores, e ele mesmo os entrega ou pede para uma das senhoras presentes para fazer isso.

Katerina ficou entusiasmada. No havia dvidas de que iria adorar presenciar as corridas. Seria muito melhor, porm, se o pai estivesse ao seu lado para explicar-lhe 
tudo o que fosse interessante sobre aquele esporte.

Assim que terminou o breakfast, ela se vestiu depressa, escolhendo para a ocasio um vestido que achou adequado e o chapu mais simples que havia trazido. Poucos 
segundos depois, descia as escadas.

Emily lhe dissera que lady Branston no se levantara ainda. Isso era bom, pois Katerina poderia ir  corrida antes que a tia pusesse algum obstculo.

Ao chegar ao hall, viu uma carruagem grande e mais rstica parar  porta da frente da casa. Alguns cavalheiros subiam na carruagem, e meia dzia de cavalarios estavam 
por ali segurando alguns cavalos e obviamente esperando pelos cavalheiros.

Lorde Kimberley, que se sentara ao lado de Katerina  mesa de jantar na noite anterior, assim que a viu, exclamou:

- Venha conosco, srta. Darley! Imagino que ainda vai demorar muito para as outras senhoras descerem e se juntarem a ns.

Katerina sorriu para ele, lembrando-se de como adorava a conversa interessante com aquele simptico cavalheiro durante o jantar.

- Gostaria muito, se acha que fica bem.

-  sempre certo fazer aquilo que desejamos e pedimos permisso depois.

Todos riram e um dos cavalheiros disse:

- Fica-lhe muito bem dizer, Kimberley, mas, se fizesse isso em seu ministrio, seria uma confuso dos diabos.

- Isso  verdade. Entretanto, acho uma boa ideia que a

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srta. Darley se junte a ns. Se houver problemas, todos ns assumiremos a culpa!

Novas risadas ecoaram.

Katerina se decidiu e subiu na carruagem, sentando-se ao lado de lorde Kimberley.

- Espero que tenha dormindo bem - disse o ministro assim que o veculo se ps em marcha.

Ela sentiu um calafrio por todo o corpo s em pensar que algum pudesse pelo menos ter ideia do que acontecera naquela noite.

- Sim, obrigada.

Logo que o grupo chegou ao lugar onde comearia e terminaria a corrida, os cavalheiros e Katerina desceram da carruagem. J havia diversos espectadores por ali.

Crianas andavam pelos gramados, e havia ces, alguns inquietos e barulhentos, outros serenos ao lado de seus donos, que deviam ser pastores de ovelhas.

Os homens de uniforme - e havia muitos deles - eram provavelmente couteiros.

Para Katerina, especialmente, tudo aquilo era fascinante. Seus pais j lhe haviam falado sobre essas corridas que aconteciam no campo, na Inglaterra, principalmente 
nas grandes propriedades cujos donos eram senhores de terras muito ricos e importantes.

Katerina continuou ao lado de lorde Kimberley, e os dois caminharam at onde se encontravam os cavaleiros que tomariam parte na corrida ponto a ponto.

Lorde Kimberley inspecionou os cavalos e falou com os respectivos donos.

O ministro era um homem jovial e de excelente humor.

De repente, todas as cabeas se voltaram para a mesma direo. O duque se aproximava da linha de partida, montado num lindo garanho negro.

Acompanhando-o, vinham mais alguns de seus hspedes, todos eles montados tambm em soberbos animais. Entre todos, porm,

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sobressaa o duque, e Katerina no podia tirar os olhos daquela figura majestosa.

Num murmrio geral, todos os presentes o cumprimentaram. Os cavaleiros tiraram respeitosamente os chapus.

O duque agradeceu as saudaes. Foi ento at os cavaleiros, ficando diante deles. Em tom autoritrio, ditou os regulamentos da corrida.

Katerina observou os cavalos e cavaleiros alinharem-se na linha de partida e desejou poder participar tambm daquela corrida, mas nenhuma mulher o fazia.

As esposas e namoradas dos fazendeiros e de outros homens que tomavam parte na corrida estavam ali para incentivar, torcer e aplaudir aqueles a quem queriam bem.

O duque foi para o lado dos cavaleiros, que, com alguma dificuldade, formaram uma linha

Depois que at o cavalo mais rebelde pde ser mantido sob controle, o duque ergueu uma pistola e atirou para o ar, dando o sinal de largada.

Todos os animais partiram, velozes, levantando poeira. O trajeto era longo e compreendia trechos distantes, no interior da propriedade. Por isso, o duque e outros 
cavaleiros seguiam os participantes, para observarem no s o trajeto, mas tambm os regulamentos da corrida. Enquanto o duque se afastava, Katerina achava difcil 
olhar para outra pessoa; s tinha olhos para ele.

Duas carruagens abertas se aproximavam: em uma vinham a tia de Katerina e outras senhoras e, na outra, a condessa de Calverton, outra senhora e dois cavalheiros. 
Estes desceram e caminharam at onde se achava lorde Kimberley, que observava atentamente os cavalos saltarem os primeiros obstculos da corrida.

Katerina considerou se deveria ou no ir at  carruagem da tia. Antes de se decidir, viu a condessa acenando para ela. Achou que devia ser um engano, mas logo percebeu, 
pelo modo como a condessa lhe acenava, que no podia haver dvidas. Dirigiu-se

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depressa at a carruagem de Anastcia, e esta ordenou-lhe diretamente:

- Entre. Quero falar com voc!

Era impossvel recusar. Um lacaio abriu a portinhola e Katerina subiu na carruagem, sentando-se ao lado da condessa.

Anastcia estava ainda mais encantadora do que na noite anterior, trajando um vestido de seda verde-esmeralda com enfeites de renda e fitas de veludo. Seu pequeno 
chapu ostentava penas da mesma cor do vestido. A elegncia daquela mulher era digna de Rotten Row; a condessa se sobressairia mesmo entre as senhoras mais elegantes 
que frequentavam aquele lugar to exclusivo, no Hyde Park. Alm de vistosa, Anastcia era extremamente linda.

Podia-se entender por que o duque sentia-se to atrado por aquela mulher deslumbrante.

Anastcia olhava para a jovem ao seu" lado como se esta fosse uma pessoa insignificante, sem o mnimo interesse. Todavia, desejava ardentemente saber o que havia 
acontecido na noite anterior. No restava dvidas de que o duque havia ido para o quarto vizinho, pois ouvira vozes vindas dali. E o quarto vizinho era o de Katerina.

O som de vozes continuou durante todo o tempo em que o conde mudara de roupas e se preparara para dormir. S depois que ele j se achava dormindo  que o rudo cessou.

Com voz amvel, Anastcia disse a Katerina:

- Conte-me o que aconteceu no seu quarto na noite passada. Ouvi o som de vozes e no consegui dormir.

Katerina susteve a respirao, lembrando-se de que o duque havia recomendado absoluto sigilo. Precisava pensar bem depressa no que responder. Felizmente, sua presena 
de esprito f-la dizer calmamente:

- Creio que foram as batidas  porta de seu quarto que acordaram tia Lucy e tio Arthur.

- Se foi apenas isso o que aconteceu, lamento ter-lhes perturbado o sono. S no compreendo por que ambos precisaram ir ao seu quarto.

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- Acho que tia Lucy ficou preocupada comigo, e tio Arthur a acompanhou.

Katerina aparentava a maior naturalidade e ficou olhando ao longe enquanto falava, parecendo muito interessada na multido que caminhava, acompanhando as etapas 
da corrida.

- Havia mais algum com voc? - quis saber a condessa. Era uma pergunta perigosa, e Katerina a evitou, chamando a ateno da condessa para algumas carroas de cores 
vistosas, fechadas, verdadeiras casas sobre rodas.

- Oh, olhe! - ela exclamou. - So carroas de ciganos. Sempre quis v-las de perto. Ser que algum me levaria at l? Gostaria tanto de conversar com ciganos!

Sem esperar resposta, foi abrindo a portinhola da carruagem, antes mesmo de esperar pelo lacaio.

Saltou para o cho, sem olhar para a condessa, foi depressa para junto de lorde Kimberley, que se achava entretido conversando sobre cavalos.

No quis interromp-lo. Felizmente, conseguira se livrar de uma situao perigosa. No poderia deixar de atender ao pedido do duque.

A corrida ocupou quase toda a manh. No fim, os prmios foram concedidos ao vencedor e aos melhores classificados, e quem os entregou foi a esposa j idosa do governador.

Depois, foi oferecido na manso um grande almoo, servido bem mais tarde do que de costume. Os convidados s deixaram a sala de jantar s quatro da tarde.

As senhoras subiram, indo trocar-se para o ch. Lucy seguiu a sobrinha at o quarto e fechou a porta a chave.

Surpresa, Katerina olhou para a tia com uma expresso indagadora.

- Vi quando a condessa de Calverton conversava com voc durante a corrida. O que ela queria?

- A condessa perguntou-me quem estava conversando em meu quarto na noite passada, pois ouviu vozes.

- O que voc respondeu?

- Disse apenas que a senhora e tio Arthur acordaram com

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o barulho de algum batendo numa porta, e vieram ver se eu estava bem.

- Foi uma resposta inteligente. Certamente voc no mencionou a presena do duque.

- No... claro que no!

Lucy ficou pensativa por um momento, dizendo depois:

- Fique longe dessa mulher. Ela  perigosa, muito perigosa. Todavia, graas a ela voc vai sair lucrando.

Katerina pareceu confusa.

- O que quer dizer com isso?

- Voc no pode ser to tola! - exclamou Lucy com sarcasmo. - Ser que ainda no entendeu que, graas  condessa, est comprometida e prestes a se casar com o duque?

Katerina fixou os grandes olhos na tia, no acreditando no que acabava de ouvir. Ento perguntou, com uma voz sumida, que nem parecia a sua:

- A senhora disse que... vou me casar com o duque?

- Claro que se casar com ele! Ento no compreende que, se eu e seu tio o apanhamos em seu quarto quela hora da noite, no h nada a fazer para salvar a sua reputao 
a no ser torn-la esposa dele?

- No pode ser verdade!

- Oh, pelo amor de Deus! - disse Lucy, irritada. - Ser que preciso explicar que, se algum tiver a mais leve suspeita de que o duque esteve em seu quarto  uma 
da manh, voc ser banida da sociedade e ser considerada aos olhos de todos como uma mulher leviana?

Ela fez uma pausa e mostrou um ar de riso ao acrescentar:

- Diz o ditado que "maus ventos no trazem bonana", mas, desta vez, esse vento lhe trouxe uma coroa de duquesa.

- Mas o duque nem sabia que este era o meu quarto! argumentou Katerina.

- Isso no importa. Eu o encontrei aqui, e ele ter que se casar com voc. E se quer minha opinio, considero-a uma pessoa de muita sorte!

- Mas eu no me casarei com ele! - exclamou Katerina

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depressa. Ele no est apaixonado por mim. Ele gosta de outra pessoa. Como posso me casar com algum que no me ama?

Lucy olhou para a sobrinha com uma expresso que era um misto de incredulidade e desdm. Katerina deu um passo para trs.

Ento tudo o que tenho a dizer  que voc  muito mais idiota do que eu pensava. Meu Deus, Katerina, esta  a coisa mais maravilhosa que lhe poderia acontecer!

Erguendo a voz, ela prosseguiu, em voz animada e mais alto!

Voc ser a duquesa de Lyndbrooke! No nego que eu queria arrumar-lhe um marido o mais depressa possvel, para me livrar de voc, porm, jamais sonhei com um duque!

M-mas... tia Lucy... precisa me ouvir...

No vou perder meu tempo. Seu tio est providenciando tudo, e como  seu tutor, a nica coisa que voc tem a fazer  obedecer-lhe. Vai casar-se com o duque, quer 
queira, quer no. E quanto mais cedo isso acontecer, melhor!

Nada mais havia a dizer. Lucy abriu a porta, saindo do quarto com seu andar imponente, enquanto a sobrinha a via afastar-se, parecendo transformada em pedra. Jamais, 
mesmo em seus momentos mais fantasiosos, imaginara que isso lhe pudesse acontecer.

O duque era o homem mais maravilhoso que Katerina j vira em sua vida, mas o casamento devia fundamentar-se no amor. Se ele amava a condessa de Calverton, certamente 
no iria querer envolver-se com uma jovem que mal conhecera, e odiaria a ideia de ter como esposa uma mulher que no amava.

Katerina podia lembrar-se da raiva contida do duque, na noite anterior, que chegava at ela em vibraes. Seria impossvel a convivncia de ambos sem amor.

"Tenho que falar com ele! Devo explicar-lhe que nosso casamento  impossvel!", ela pensou. As senhoras desceram para o ch um pouco atrasadas, usando todas elas 
vestidos lindos e elegantes.

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Os cavalheiros tambm haviam trocado os trajes de montaria. O ch foi servido no jardim de inverno, que havia sido anexado  casa apenas cinquenta anos antes. Era 
muito espaoso, e ali se cultivavam lindas orqudeas.

Durante todo o tempo em que esteve ali, Katerina no conseguia se concentrar. S pensava no duque e em como poderia dizer a ele o que sentia. Entretanto, ele nem 
olhava na direo dela e estava sempre conversando com algum.

Durante o jantar, ela se sentou bem no fim da mesa. Havia tantos convidados extras que no se apresentaria uma chance de conversar com ele.

Quando as senhoras deixaram a sala de jantar, Katerina percebeu que a condessa e tia Lucy no escondiam a animosidade que sentiam uma pela outra, e isso era, certamente, 
por causa do duque. Elas conversavam em voz suave e baixa, mas havia dio em seus olhos.

No salo, muitas mesas j estavam preparadas para o jogo de cartas, como na noite anterior. No outro salo de recepes, uma orquestra de cordas tocava, e havia 
uma pista de dana, para quem quisesse danar.

Katerina danou com alguns cavalheiros, hspedes do duque,

e depois com vrios rapazes que haviam sido convidados s para o jantar.

Como o duque no demonstrasse interesse algum em falar com ela, Katerina deixou o salo e foi para seu quarto.

Deitada na penumbra, fez uma prece a seus pais, pedindo-lhes que a orientasse.

"Como posso desposar um homem, mame, que no me ama?

Sendo forado a se casar comigo, o duque me odiar. No
poderei viver nesta casa sabendo que ele no me quer aqui. Sei que ele deseja ter ao seu lado uma pessoa bem diferente de mim."

Era impossvel, naturalmente, o duque casar-se com a condessa. Todavia, a simples ideia de ser amada por um homem como o duque era para Katerina algo maravilhoso. 
Tudo em sua cabea era confuso. Assustada, sem saber o que poderia

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fazer, ela encontrou alvio nas lgrimas que lhe rolavam fartas pela face.

No momento em que tentava reprimi-las e as enxugava, ouviu a porta do quarto de tia Lucy se fechar. Pouco depois, Katerina ouviu sons do outro lado de seu quarto. 
Isso indicava que a condessa de Calverton tambm se recolhera.

Pensando na beleza da condessa e em como ela era sedutora, com aqueles olhos verdes, a pele alva e aquele exotismo, Katerina sentiu as lgrimas voltarem-lhe aos 
olhos, desta vez tempestuosas.

Chorou at que, exausta, adormeceu.

O duque foi para a biblioteca depois do breakfast. Ele se levantara bem mais cedo, deliberadamente, para evitar encontrar-se com os hspedes.

J havia cavalgado bastante. Pouco dormira, pois isso lhe fora impossvel. Um pouco de exerccio poderia aliviar-lhe a depresso e a raiva. Mas, mesmo depois de 
cavalgar por algum tempo, ainda estava furioso.

No somente Anastcia parecia disposta a estragar sua vida, mas tambm Lucy. Sem a interferncia dela, ele poderia lidar com Arthur Branston, um homem de bom corao 
e compreensivo. Iria pedir-lhe para esquecer o incidente infeliz, pois, afinal, nada acontecera de mal.

Ele sabia, porm, que, atrs de tudo, estava o cime de Lucy. Ao perceber que ele estivera com Anastcia, armara-lhe aquela cilada, e tivera sucesso. Agora, s esperava 
jamais voltar a ver aquela mulher na sua frente. J tinha seus planos para aquela vbora, e os poria em prtica assim que o casamento com a sobrinha dela se realizasse.

Lucy no perdia por esperar, e teria o maior desapontamento de sua vida.

Todavia, o duque ainda no perdera as esperanas de acontecer um milagre que pudesse salv-lo, apesar de no ter a mais vaga ideia de como isso poderia ser possvel.

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No dia seguinte, os hspedes deixariam Lynd, e ele iria conversar com seu capelo, para providenciar o que fosse necessrio para o casamento.

Ele ficou ainda uns instantes imaginando o que aconteceria se ele dissesse com firmeza e sem rodeios que se recusava, terminantemente, a desposar Katerina. E se 
mandasse Branston para o inferno, com aquela sua insistncia para que ele agisse "como um cavalheiro".

Ah, se ele fosse simplesmente Tristram Brooke, era exatamente isso o que faria. Porm, era o duque de Lyndbrooke, e lorde Branston, com sua posio na corte, poderia 
tornar-lhe as coisas muito desagradveis. Poderia at fazer um escndalo que afetaria toda a famlia.

Ainda no dia anterior, a esposa do governador lhe dissera, depois de entregar os prmios, que seu marido iria afastar-se do cargo no final do vero.

- Meu marido pensa, caro duque - dissera ela -, que Vossa Alteza desempenhar com perfeio as funes dele. O afastamento dele ser um benefcio para todos no condado, 
pois ele j est muito velho.

-  muita bondade dele - respondera o duque.

- No  bondade. Meu marido considera-o capaz de ocupar o lugar dele, e poder orient-lo sempre, se estiver bem de sade.

Lorde Branston poderia, logo de incio, impedir que o duque fosse o governador. Mas, alm disso, havia muitos outros modos de ele tornar a vida do duque e de sua 
famlia extremamente desagradvel.

"Tenho que fazer o que lorde Branston quer", disse o duque para si mesmo, desesperado.

Nesse instante, a porta da biblioteca se abriu, e ele levantou a cabea, impaciente, pois no desejava ser perturbado por ningum. Para sua surpresa, viu Katerina 
 sua frente.

Ele se levantou e ela deu mais uns passos at  escrivaninha, fazendo a seguir uma pequena reverncia.

Em voz baixa e meio assustada, perguntou:

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- Posso falar com Vossa Alteza?

- Claro!

Ela se sentou em uma cadeira dura e incmoda, onde costumavam sentar-se o administrador ou alguns dos empregados.

O duque no fez questo de oferecer  recm-chegada uma poltrona mais confortvel, e sentou-se, por sua vez, em frente dela.

Houve um momento de silncio, como se Katerina procurasse as palavras. Percebendo que ela parecia aflita, o duque disse:

- Talvez eu lhe deva desculpas pelo que aconteceu antes de ontem  noite.

- No... por favor! No h necessidade disso! - disse Katerina depressa. - Compreendo o que aconteceu. Foi muita coragem sua saltar de uma sacada  outra. Poderia 
ter cado.

- Tambm fiquei contente por ter-me sado bem. Houve uma pausa, e depois Katerina disse:

- Tia Lucy me disse que tenho que me casar com Vossa Alteza, mas tenho uma outra ideia. No sei se gostaria de ouvir o que gostaria de dizer.

- Claro. Pode falar. S lhe adianto que no vejo alternativa seno fazer o que seus tios querem.

Ele no pde evitar, e disse aquelas palavras com sarcasmo. Vendo, porm, a expresso dos olhos de Katerina, pensou que talvez estivesse sendo cruel com aquela criana.

- O que eu gostaria de sugerir  que poderia me dar algum dinheiro... s um pouco, para eu sair do pas... e eu desapareceria.

O duque olhou-a fixa e demoradamente. No podia acreditar no que acabava de ouvir.

- Presumo que tenha algum em mente que possa acompanh-la.

- Ningum. Mas posso partir, se tiver meios para isso.

- E para onde iria?

- Pensei muito, e acho que, se eu voltasse para a Frana, onde eu morava com meus pais antes de eles morrerem, certamente

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tio Arthur logo me encontraria. O melhor seria ir para outros lugares... para bem longe... onde fosse impossvel me encontrarem.

- Para onde, por exemplo?

- Quando estive na ndia com meus pais, vi algumas irms de caridade trabalhando com os pobres. Poderia ajud-las... com as crianas.

O duque ficava cada vez mais espantado, e chegava a duvidar de sua capacidade auditiva.

Katerina continuou, como se conversasse consigo mesma:

- Em Cairo, visitamos um orfanato. Ali, as irms precisavam tanto de pessoas para ajud-las! Eu seria til, e poderia cuidar dos bebs.

- Est dizendo que esteve na ndia e no Egito? - perguntou o duque, surpreso.

- Estive em muitos outros pases com meus pais... Foram viagens inesquecveis.

Ela ficou pensativa por um momento, como se recordasse o passado.

- Ns viajamos sem luxo e sem muito conforto, mas conhecemos diversos povos diferentes e estranhos. Sei que entre eles me sentirei muito mais "em casa" do que com 
tia Lucy e com os amigos dela.

Ela quase dissera "seus amigos" mas mudou a tempo, para no ser rude. O duque percebeu, porm, a hesitao.

- Voc certamente me surpreende! Nunca poderia imaginar que tivesse tido uma vida to excitante. Pensei que tivesse vivido sempre pacatamente, que tivesse tido uma 
vida restrita, uma vez que seus pais no eram ricos.

- Analisando minha vida atravs do prisma da riqueza que possu, tem toda a razo em achar que ela fosse restrita em termos de luxo e ostentao. Mas nossa vida 
em Amiens era excitante. Nossa casa vivia sempre cheia de pessoas alegres e de mente aberta. Papai era muito procurado por ser artista, e mame era admirada por 
sua beleza e bondade. Nada era montono, e ramos cercados principalmente de amor.

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O duque viu que Katerina parecia apreensiva com o futuro, um futuro onde no haveria o amor que ela conhecera no seio de sua famlia, o amor que testemunhara entre 
seus pais.

- Imagino que voc saiba que tambm j estive na ndia disse o duque depois de um momento.

- Suponho que tenha estado l com seu regimento.

- Sim, estive, mas voltei  ndia mais tarde, depois de ter deixado o regimento.

Katerina suspirou.

- Jamais conheci algum que tivesse estado na ndia e que no ansiasse por voltar quele pas.  por isso que eu sei que viverei muito feliz l... Isto , se pagar 
a passagem at Calcut. Estou preparada para partir j.

- Sozinha?

A palavra pareceu ecoar pelas quatro paredes, e Katerina respondeu:

- Estarei bem.

- Como pode ter tanta certeza disso, tendo essa aparncia? Ela no entendeu bem o que ele quis dizer e perguntou:

- Quer dizer que poder haver homens que me causaro problemas?

- Acho que isso ser o mnimo que lhe pode acontecer, principalmente considerando o modo como deseja viajar.

Katerina fez um gesto com as mos.

- Se deseja que eu desaparea, no importa o modo como eu o faa.

- Eu no disse que desejava o seu desaparecimento. A ideia foi sua.

-  o que devo fazer para no torn-lo uma pessoa desesperada e infeliz.

- Voc no acha que o fato de vir a tornar-se duquesa compensaria o sacrifcio de tornar-se minha esposa?

Ela virou a cabea, desviando o olhar, e o duque analisou-lhe o perfil, verificando, ao mesmo tempo, que aquela jovem era diferente de qualquer outra mulher.

Aquele pequeno nariz reto e clssico, o rosto muito jovem,

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quase infantil, os cabelos, tudo enfim naquela debutante  sua frente revelava uma beleza incomum.

Ele se inclinou para a frente, ps os braos na escrivaninha e juntou as mos, dizendo:

- No suporta a ideia de vir a ser minha esposa?

- No, no! No  isso! - ela apressou-se em dizer. Acho que  um belo homem,  uma pessoa excelente, melhor no pode haver...  tambm diferente de todos os homens 
que j vi, mas... sei que no me ama... e que est apaixonado por outra mulher. Eu no iria suportar saber que me odiava e que se arrependia de ter se casado comigo.

O duque estava atnito.

- Quem lhe disse que estou apaixonado por outra mulher?
- ele perguntou agressivamente.

Katerina piscou os olhos diversas vezes.

Sem precisar fazer perguntas, o duque soube o que Katerina estava pensando. S agora compreendia o que era inevitvel que aquela garota inocente pensasse.

- Acho, Katerina, que, se vamos nos casar, seria um erro haver segredos entre ns. Vamos fazer um pacto: s falaremos a verdade um ao outro.

- Eu nunca mentiria para voc - disse ela em voz baixa.

- Prometo-lhe o mesmo. Portanto, no h necessidade de mal-entendidos. Quero que voc saiba que, quando fui para o seu quarto, tendo escapado do quarto da condessa, 
eu no estava, como pode ter pensado, fazendo amor com ela.

Ele notou o sbito rubor que subiu ao rosto de Katerina, e achou-a ainda mais linda.

- Foi um grave erro eu pensar tal coisa - disse ela humildemente.

- Ora, qualquer um teria pensado o mesmo, dadas as circunstncias. Na verdade, a condessa  uma velha amiga. Conheci-a h alguns anos. ramos muito ligados nessa 
poca, e at pedi a ela que se casasse comigo, mas ela recusou.

- Ela recusou?

- Na ocasio, eu era um homem pobre, sem possibilidade de

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vir a me tornar duque. Eu mal podia me manter, quanto mais manter uma esposa. A condessa, como pode imaginar, queria todo luxo e conforto que um homem pudesse lhe 
dar, e a posio que sua beleza merecia, para brilhar na alta sociedade.

O duque falava com um certo tom desdenhoso, e Katerina ouvia atentamente.

- Nunca mais voltei a ver Anastcia, at a noite em que a vi em Devonshire House, na vspera de eu vir para Lynd, para receber meus convidados. Surpreendi-me quando 
vi o conde e a condessa chegarem, pois no os havia convidado. Anastcia pensou que poderamos reatar nosso antigo romance.

Katerina no tirava os grandes olhos de cima do duque.

- Como era impossvel conversar com a condessa l embaixo, entre tantos convidados, decidi ir ao quarto dela para lhe dizer simplesmente que no havia lugar para 
ela em minha vida.

Enquanto ele falava, lembrou-se daquele estranho momento em que sentira que Anastcia no tinha mais o poder de cativ-lo. Ele se libertara. Estava livre dos fantasmas 
e das lembranas que durante anos o haviam atormentado.

Ao terminar a narrativa, o duque olhou para Katerina e notou a expresso dos olhos dela. Se quisesse descrev-los, diria que aquela linda figura  sua frente parecia 
ter brilho, ter uma aura; havia uma luz emanando deles. Sem se mover, sem dizer nada, Katerina era radiosa. No havia palavras que a pudessem descrever com exatido. 
Ela parecia um sonho.

Quando os olhos de ambos se encontraram, Katerina teve a estranha sensao de que ela e o duque j se haviam encontrado na eternidade.

A porta da biblioteca abriu-se inesperadamente e o conde de Calverton entrou.

- Ento est aqui, Lyndbrooke! Os criados me disseram que o encontraria na biblioteca.

O duque se virou, quase relutando em olhar para o conde. Com um baque, Katerina sentiu que voltava  terra. O conde se aproximou dizendo:

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- Espero no estar interrompendo nada. Se eu for demais, diga-me, Lyndbrooke.

Katerina se levantou.

- Tia Lucy j deve estar de p, e certamente deseja me ver
- disse ela, ligeiramente embaraada.

Saiu da biblioteca sem olhar para o duque.

Ele teve a estranha sensao de que o sol se fora com ela.

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CAPTULO VI

Como era domingo, o duque foi  igreja, e lorde Kimberley o acompanhou. A nica pessoa presente era Katerina.

Ela parecia muito jovem e radiosa, sentada no banco de madeira todo entalhado, reservado  famlia do duque.

Ali, na paz daquela igreja, ele percebeu que seus hspedes elegantes h muito no apareciam na igreja, nem mesmo para o culto dominical.

Era tradicional que o duque fizesse as leituras quando se encontrava na propriedade. Ele no deixava de cumprir essa obrigao, apesar de consider-la aborrecida, 
pois preferia estar cavalgando.

Naquele domingo, entretanto, tinha a companhia agradvel do ministro das Relaes Exteriores. Os dois amigos haviam ido  igreja numa carruagem aberta, passando 
debaixo dos velhos e umbrosos carvalhos. O caminho no era longo, pois a igreja ficava logo adiante, a um canto do parque.

- Foram dias maravilhosos, Lyndbrooke, e diverti-me bastante - dissera lorde Kimberley durante o trajeto.

- Isso me alegra.

- A propsito, achei a sobrinha de lorde Branston a jovem mais encantadora e mais inteligente que j conheci em minha vida.

O duque olhara surpreso para o amigo. Lorde Kimberley tinha a reputao de ser um homem exigentssimo. Era tambm muito devotado ao trabalho, e jamais se ouvira 
qualquer comentrio menos digno sobre ele. Tampouco, estivera ligado a qualquer uma das lindas mulheres que haviam deixado evidente seu interesse por ele.

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-  uma pena que Branston no tivesse tido filhos continuara lorde Kimberley. - Mas no creio que sua adorvel sobrinha possa compensar a ausncia de um filho por 
muito tempo. Sem dvida, ela logo se casar. Devo admitir que me encantei com a vivacidade da srta. Darley. Ela tem a inteligncia de um homem.

Fora nesse instante que eles haviam chegado  igreja, e o duque nada respondera. O vigrio, que era tambm o capelo particular do duque, j estava esperando, com 
sua sobrepeliz, para acompanh-lo pela nave da igreja at o banco da famlia, que ficava na capela-mor.

Depois do que lorde Kimberley havia dito sobre Katerina, ao v-la, o duque admitiu que ela era uma pessoa especial, e no se admirou de encontr-la ali na igreja 
para o servio religioso dominical. Katerina era to linda que ele imaginou se no seria demais ter ainda tanta inteligncia.

O servio religioso no durou mais que uma hora.

A carruagem estava esperando  porta da igreja para levar o duque e o lorde Kimberley de volta  manso, e Katerina voltou com os dois cavalheiros.

O duque notou que ela se mostrava tmida, e atribuiu isso  conversa que haviam tido na biblioteca algumas horas atrs, quando haviam sido interrompidos pelo conde 
de Calverton.

Olhando-a, ele admirava cada vez mais aquele tipo de beleza incomum, que jamais encontrara em mulher alguma.

A proximidade dela despertava nele uma estranha sensao, e ele se perguntava se ela sentiria o mesmo. A presena dela era notada, no porque Katerina se insinuasse 
ou o bajulasse, como faziam Anastcia e Lucy. Ele notava as vibraes que vinham daquela linda jovem de rosto angelical e sentia por ela algo diferente, que at 
ento desconhecera.

Katerina tambm sentia as vibraes que vinham do duque.

Lorde Kimberley conversava animadamente com a jovem que tanto admirava, e a conversa voltou-se para as diferentes religies praticadas por outros povos, principalmente 
os do Oriente.

Ouvindo os dois, o duque se surpreendeu com o profundo

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conhecimento de Katerina sobre o assunto. Ele s esperava uma conversa daquele nvel entre homens mais maduros e com grande conhecimento sobre o Oriente. A certa 
altura, Katerina disse:

- Sempre achei que os cristos se exasperam  ideia da morte. Afinal, Cristo afirmou que viera ao mundo para que os mortos ressuscitassem. Como cristos, temos que 
acreditar nisso, e acreditar em uma vida melhor depois da morte. Mesmo o luto que as pessoas guardam  exagerado. Mesmo a rainha nunca mais tirou o crepe negro desde 
o falecimento do prncipe consorte.

Lorde Kimberley riu.

- Concordo com voc, mas isso  lse-majest, minha querida. Um ano  luto demais.

- Especialmente quando sabemos que a pessoa que pranteamos est bem viva e provavelmente rindo de ns - disse Katerina calmamente.

- Voc acredita mesmo que seu pai e sua me estejam vivos neste momento? - interrompeu o duque.

- Claro que esto vivos! - disse ela com convico. Ainda h pouco, na igreja, senti a presena deles, e tenho certeza de que meus pais me ajudaro em qualquer problema... 
e me orientaro para solucion-lo satisfatoriamente.

O duque achou que o "problema" devia se referir a ele prprio. Mais tarde, ele continuaria a sua conversa com Katerina. Era preciso deixar bem claro que no permitiria 
que ela fosse para outro pas, tampouco no havia necessidade de tentar se esconder.

Havia convidados para o almoo, e, depois de se levantarem da mesa, todos quiseram fazer um passeio pela propriedade, pois a tarde de domingo estava linda.

Lugares lindssimos e agradveis era o que no faltava em Lynd. Um dos pontos mais encantadores era um lago no centro de um bosque. Alm da beleza do lugar, as guas 
do lago eram consideradas poderosssimas na cura do reumatismo.

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Havia tambm um observatrio, numa espcie de torre, de onde se podia avistar toda a propriedade e os arredores.

Os cavalheiros geralmente preferiam visitar os paddocks, onde podiam ver as guas com seus potros recm-nascidos.

Quando os hspedes voltaram para a manso, era hora do ch.

O duque conseguira fazer com que Anastcia e Lucy fizessem o passeio em carruagens diferentes, e ele fora em uma terceira carruagem, ficando livre das duas senhoras.

Anastcia fora a ltima a voltar do passeio. Ao ver a carruagem dela se aproximando, onde havia mais dois cavalheiros, o duque apenas imaginou por onde aqueles trs 
teriam andado. Mas desapareceu de vista rapidamente, indo para a saleta junto ao seu quarto, preferindo no tomar o ch com seus hspedes.

Depois do ch, Katerina subiu para seu quarto, a fim de vestir-se para o jantar. Ela havia sentido a falta do duque.

"Preciso falar com ele ainda hoje", ela pensou. "Deve haver um modo de evitar que ele se case comigo... a no ser que ele deseje isso."

Todavia, no era provvel que ele desejasse casar-se com uma pessoa como ela. No fundo de seu corao, havia, entretanto, a esperana de que, se o casamento fosse 
mesmo inevitvel, talvez algum dia ele viesse a am-la um pouco.

"Se ele me amar, mesmo que seja um pouco", ela disse  me, "ser maravilhoso viver ao lado dele".

O pouco contato que tivera com o duque fora o bastante para faz-la sentir sua presena perturbadora. Quando eles voltavam da igreja, a proximidade dele na carruagem 
era to marcante que ela achava at difcil concentrar-se no que lorde Kimberley dizia e tentar manter uma conversa inteligente.

"O que  to encantador!", continuou a conversar com a me. "Ser que ele se interessar por mim? Mas acho que ser maravilhoso estar ao lado dele, conversar com 
ele, ouvi-lo."

Katerina escolheu o vestido mais lindo que possua. Era branco, prprio para uma debutante, e todo enfeitado com delicados buques de miostis. Ao redor da cintura 
fina, uma faixa

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azul era amarrada em lao, cujas pontas caam sobre as anquinhas. Katerina estava to linda, que parecia uma figura sada de uma tela.

- Est adorvel, senhorita! - exclamou Emily assim que terminou de arrumar Katerina. - Acho que vou prender alguns botes de jasmim em uma fita azul e amarr-la 
em seus cabelos. Vai ficar ainda mais linda.

Os jasmins, que, alm de bonitos, eram muito perfumados, fizeram Katerina sentir-se muito romntica.

Ao descer as escadas para o jantar, ela esperava que o duque a admirasse. Ao chegar ao salo, achou que descera cedo demais. Havia poucas pessoas ali. Seus olhos 
e os do duque se encontraram, e, por um momento, ambos ficaram imveis.

Katerina sentiu o corao bater alucinadamente dentro do peito. Seus olhos muito grandes brilhavam de felicidade.

O duque tambm estava preso queles olhos que fulguravam como estrelas no cu. Subitamente, diversas pessoas entraram rindo no salo, e o encanto se acabou.

Katerina se virou, mas no conseguia falar. Ficou por alguns segundos olhando um quadro na parede, porm no o via. Aos poucos recuperou o autocontrole, e ningum 
notou sua perturbao.

Durante o jantar, ela no viu mais ningum. S sentia a presena do duque na cabeceira da mesa.

Terminado o jantar as senhoras deixaram o salo, e ela foi para uma das janelas, ficando ali, de p, admirando a beleza da noite. A lua e as estrelas pareciam segredar-lhe 
alguma coisa, mas ela no sabia o que era. Uma vez mais teve certeza de que seus pais estavam ao seu lado, e isso a deixou feliz.

"Amanh todos partiro", pensou, "e eu poderei conversar com o duque".

Como era domingo, no houve dana. Quase todos achavam-se sentados s mesas de jogo.

Katerina pensou em sair do salo e ir para seu quarto; ningum notaria sua ausncia.

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Subiu as escadas sem se preocupar em pegar uma das velas que estavam sobre uma mesa, no hall.

J em seu quarto, pensou em tocar chamando Emily, mas decidiu fazer isso depois. Sobre a penteadeira, duas velas iluminavam o aposento. Katerina foi at a janela 
e abriu as cortinas, pensando em ficar mais algum tempo admirando o cu, porm, nesse instante, para sua surpresa, a condessa de Calverton entrou.

- Vejo que vai se recolher cedo, e  tambm o que pretendo fazer. Entretanto, ser que poderia me fazer um favor?

Katerina no escondia a sua surpresa ao ver o modo amvel como a condessa a tratava.

- Sim, claro.

- Imagine que fiz uma coisa to tola! Eu estava  janela de meu quarto, olhando a beleza da noite, e deixei cair meu bracelete. Sinto-me embaraada em pedir para 
um dos criados ir peg-lo para mim. Meu marido ficar furioso se souber que fui to descuidada, mas eu sei que o bracelete caiu no canteiro de flores logo abaixo 
de minha janela. S espero que no tenha quebrado.

- Ento quer que eu v peg-lo?

- Voc teria a bondade de fazer isso para mim? Mas no v pela porta da frente, pois, ao v-la, ficaro curiosos. Afinal, no quero que saibam que ando jogando minhas 
jias pela janela!

Ela deu uma risada e Katerina disse:

- Vou descer pela escada lateral. H uma porta que d diretamente para o jardim de rosas.

-  muito amvel. At me envergonho de ter sido to tola. Katerina saiu do quarto e foi depressa para o jardim, passando por um corredor, caminho que j conhecia, 
pois passara por ali para ir  biblioteca. Ela vira a porta que dava para o jardim de rosas e at pensara em vir ver o jardim, quando tivesse oportunidade.

Foi fcil abrir a porta, que no estava trancada a chave. Apesar de no ser uma noite de luar, no estava muito escuro

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l fora, pois a claridade que vinha das diversas janelas iluminava o jardim.

O trecho que ficava sob a janela do quarto da condessa estava escuro. A sombra da parede talvez a impedisse de achar o bracelete.

Ela deu mais uns passos e ficou alguns segundos parada, calculando onde a jia poderia ter cado para tentar procur-la, tateando. Nesse instante, sentiu uma coisa 
pesada e escura sobre a cabea. Antes que pudesse gritar ou lutar, sentiu que a erguiam no ar. Um homem lhe segurava os braos com fora, e, segundos depois, saa 
correndo dali, carregando-a.

Foi tudo to repentino quanto aterrador. O tapete ou coisa parecida que lhe cobria a cabea e a enrolava era to grosso que a sufocava.

O homem que a carregava agora corria mais, sacudindo-a para cima e para baixo, impedindo-a de gritar.

"O que pode estar acontecendo? Quem est fazendo isso comigo?", ela se perguntava, aterrorizada.

Subitamente, o homem parou. Katerina ouviu vozes, porm no entendia o que diziam.

Ento a atiraram em um lugar duro, e ela sentiu rodas girando logo abaixo de sua cabea. Achava-se em algum tipo de veculo puxado por cavalos.

Confusa e ao mesmo tempo assustada, Katerina ficou bem quietinha. Os cavalos iam a toda velocidade. Conseguindo sentar-se, ela tentou descobrir a cabea. Passando 
as mos pela coisa pesada que a cobria, percebeu que estava enrolada em um coxinilho. Era por isso que sentira o peso sobre a cabea e o abafamento.

Conseguindo livrar-se do coxinilho pesado, ela viu que se encontrava num lugar escuro, que recebia muito pouca luz por umas frestas. Parecia haver um lampio do 
outro lado da parede de madeira.

Mesmo no escuro, Katerina percebeu que estava em uma carroa fechada, de ciganos, uma espcie de casa sobre rodas.

"Mas... por qu?"

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Seriam aqueles os ciganos que ela vira durante a corrida ponto a ponto? Se fossem eles, por que haveriam de rapt-la?

Era tudo to incompreensvel que, durante alguns minutos, ela ficou sentada, tentando organizar seus pensamentos.

Com a confuso de sua mente, seu medo aumentava cada vez mais. Estendendo as mos, foi explorando o lugar s apalpadelas. Havia uma casa ao seu lado. Continuando 
a explorao, viu que havia outra cama encostada na outra parede, e, entre as duas apenas o soalho de madeira nua.

Era tudo to incrvel! Por que estaria ali? Por mais que pensasse, no conseguia entender nem achar explicao para o rapto. O medo impedia que ela raciocinasse, 
e at respirar era-lhe difcil.

Levantou-se do cho e sentou-se em uma das camas. O colcho era duro, mas havia sobre ele um cobertor e um travesseiro.

Com cuidado, ela conseguiu arrastar-se at a porta, mas viu que estava bem fechada. Devia estar trancada pelo lado de fora.

Parecia no haver jeito de sair dali. Certamente, havia mais de um homem dirigindo os cavalos. Bem no alto das duas paredes laterais havia janelas. Ficando de p, 
podia ver alguma coisa. Percebeu que passavam por um bosque, e, de vez em quando, por entre as rvores, via o cu estrelado.

Talvez adiantasse bater com fora na porta e gritar pedindo socorro. O bom senso, porm, lhe dizia que o melhor seria no chamar a ateno, pois poderiam silenci-la 
de um modo nada delicado.

Ela voltou para uma das camas e sentou-se. Iria rezar e esperar que suas preces fossem atendidas.

Katerina se deitou e sentiu-se confortvel. Mais calma, relembrou as conversas que tivera com ciganos no passado. Esse povo considerava as carroas onde moravam 
um lugar sagrado. Elas eram suas casas, e, como ficavam sobre rodas, facilitavam sua vida nmada. Eles faziam questo de mant-las bem limpas, e quando seus donos 
morriam, as carroas eram queimadas.

Katerina ps a cabea no travesseiro alto e sentiu um cheiro gostoso de ervas.

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S mais tarde ela foi descobrir que devia haver algum soporfero no travesseiro, pois, alguns minutos depois de se deitar, caiu num sono profundo.

Acordou com a luz do sol entrando pelas janelas da carroa, que estava parada.

Quando pensava no que poderia fazer, ouviu um barulho no trinco da porta da frente, e esta se abriu. Primeiro surgiu  porta uma garota de cabelos e olhos escuros, 
que ficou olhando para ela. Pouco depois um homem no muito jovem, sem dvida um romani, pois tinha os cabelos pretos caindo dos dois lados do rosto de malares salientes, 
apareceu atrs da garota.

Agora os dois olhavam fixamente para Katerina, parecendo surpresos, e ela achou que eles estranhavam o modo como ela estava vestida.

- Voc... fome? - perguntou a garota.

- Sim, estou com fome - respondeu Katerina. - Mas poderia primeiro me dizer por que estou aqui?

A garota ergueu a cabea e olhou para o homem, que disse em voz spera:

- Ns levar voc para Londres.

- Para Londres? Por qu?

Ele a olhou demoradamente e disse apenas:

- No fazer perguntas. Melhor no saber. Pegar comida. Eles saram, fechando a porta. Katerina nada podia fazer. Novamente o terror a invadiu, e ela comeou a tremer 
e a bater os dentes.

Quando Katerina havia ido buscar o bracelete, Anastcia saiu do quarto, fechou a porta e voltou para o salo. Ningum pareceu ter-lhe notado a ausncia, pois ela 
no estivera jogando cartas. Ficara em outra parte do salo e vira Katerina subir para o quarto.

De volta ao salo, Anastcia dirigiu-se com graa em direo  lareira. Vendo, porm, que o duque conversava com um dos

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rapazes que haviam feito o passeio vespertino na mesma carruagem que ela, a condessa foi at uma das mesas de jogo.

O conde acabava de ganhar uma mo no bridge e se achava de excelente humor. Anastcia se afastou da mesa e procurou ficar discretamente o mais perto possvel do 
duque, para poder ouvir a conversa.

- Fiquei surpreso ao ver que Vossa Alteza, com sua generosidade, permite ciganos em suas terras - dizia o rapaz. Meu pai os probe de entrar em nossa propriedade, 
por isso no caam nossos animais silvestres, nem nos roubam as galinhas.

- Vocs podem no ter tido sorte com os ciganos. Sempre ofereci hospitalidade aos romanis que aparecem nas minhas terras, e jamais recebi queixas de meus administradores, 
nem dos fazendeiros. Alis, essa gente sempre me tem sido til durante as colheitas, pois nessa poca h falta de mo-de-obra.

- Vejo que tem tido sorte. Ns vivemos perto de New Forst, e, s vezes, h lutas entre grupos de ciganos rivais.

O duque, alm de nunca ter tido problemas com aquele povo nmada, at gostava deles, achando que traziam uma nota pitoresca  zona rural da Inglaterra. Na ndia, 
via ciganos que faziam peas artesanais em metal e viviam em tendas escuras. As mulheres usavam muitas jias nos braos, pescoo e tornozelos.

Conversando sobre ciganos, o duque imaginou que Katerina tambm devia ter tido contato com eles em outros pases onde havia estado, o que possibilitaria que conversassem 
sobre esse povo curioso. Pensando nela, ele olhou pelo salo e no mais a viu; devia ter subido para seu quarto.

J era mais de uma hora da manh quando a maioria dos hspedes se recolheu. Apenas alguns deles haviam ido para seus aposentos mais cedo.

Como uma procisso, homens e mulheres com velas acesas subiram as escadas, indo para seus respectivos quartos.

- Boa-noite, condessa - disse Lucy a Anastcia quando esta chegou  porta de seu quarto.

- Boa-noite, lady Branston.

Apesar da voz suave, os mesmos olhos duros fitaram a rival.

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Anastcia viu como Lucy estava linda com a luz da vela fazendo brilhar ainda mais seus cabelos dourados.

Lucy entrou em seu quarto, e sua aia, que a esperava, levantou-se e bocejou discretamente.

- Chegou muito tarde, milady.

A aia tirou primeiro a tiara de safiras e diamantes da cabea da ama.

-  verdade. Estou cansada, Agnes. Vou dormir at tarde.

- Faz bem, milady.

Ela abriu o fecho do calor, tirou-o do pescoo de Lucy e foi guardar as duas peas valiosas na caixa de couro. Depois perguntou:

- A srta. Darley subiu com a senhora? Emily estranhou que sua sobrinha ficasse acordada at to tarde, pois costuma recolher-se cedo.

- A srta. Darley veio para seu quarto h horas! Eu mesma a vi sair do salo discretamente, e at achei muito sensato da parte dela deitar-se mais cedo.

- Bem, se ela no estava no salo, milady, no quarto tambm no est. Vim de l nesse instante, e vi como Emily est preocupada com a srta. Darley.

- No posso compreender o que possa estar acontecendo!

Como um lampejo, passou pela cabea de Lucy que a sobrinha devia estar com o duque. No. No era possvel. Ele ficara no salo o tempo todo. At jogara cartas em 
uma das mesas ao lado da dela. Lucy tentara atrair a ateno dele, mas sem sucesso.

No salo no havia mais ningum quando ela subira.

- Voc deve estar enganada! - exclamou Lucy.

Ela tirou depressa os braceletes, colocou as jias nas mos de Agnes e saiu do quarto, indo at o de Katerina. Emily estava  janela.

- A srta. Darley no subiu, milady! - disse Emily, voltando-se para lady Branston. - Eu fiquei esperando que ela tocasse para me chamar e, como no houve chamado 
algum, subi para

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ver se ela havia se trocado sem o meu auxlio. No havia ningum no quarto, e a cama nem foi tocada.

- No posso compreender! Se ela foi para o jardim, a friagem da noite no lhe far bem.

Lucy no pde deixar de pensar que a sobrinha s lhe dava preocupaes. Desde que a garota chegara  Inglaterra, s lhe dera dor de cabea.

Subitamente, ela pensou, com grande sensao de alvio, que Katerina teria fugido. Afinal, ela fora bem positiva ao dizer que s se casaria por amor.

Vivendo em outro pas, Katerina tinha ideias tolas a respeito do casamento, que no eram aconselhveis a uma jovem inglesa.

- Bem, onde quer que ela esteja, acabar vindo para seu quarto - disse Lucy a Emily. -  melhor voc ir dormir. Minha sobrinha sabe cuidar de si mesma. Est acostumada 
a isso!

- No estou gostando nada do que est acontecendo! Lucy deu de ombros.

- Voc  quem sabe. Eu vou dormir.

Lucy saiu do quarto e viu que o duque vinha subindo a escada. Ele havia descido para buscar um livro que trazia na mo.

Feliz em ver o duque, Lucy esperou que ele chegasse at o patamar. Olhando-o, achou-o o homem mais atraente que j conhecera em toda a sociedade.

Assim que ele se casasse com a tola sobrinha de seu marido, seria maravilhoso estar sozinha com ele em Lynd. Ela at j decidira quais seriam os aposentos que reservaria 
para si. O mais importante, de agora em diante, era manter o duque to interessado nela como na tarde em que haviam chegado quela manso.

Era impossvel no pensar nos beijos que ele lhe dera sem sentir um calafrio a percorrer-lhe todo o corpo.

Assim que o duque se aproximou, ela disse, com aquela voz sedutora  qual os homens costumavam sucumbir:

- Tivemos uma noite adorvel. Espero que tenha ganhado no jogo.

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O duque sorriu.

- Fico feliz em saber que passou momentos agradveis.

- Lynd  a casa mais encantadora que j conheci.  o ambiente perfeito para seu dono.

Havia uma expresso convidativa naqueles olhos azuis, mas o duque fez menso de ir para seu quarto. Nesse momento, porm, o valete de lorde Branston saiu do quarto 
de vestir. Pela porta entreaberta, Arthur viu a esposa conversando com o duque.

Vestindo apenas sua grossa camisola, lorde Branston aproximou-se e perguntou:

- O que aconteceu? H alguma coisa errada? Lucy deu uma risada.

- No, claro que no, querido, eu estava apenas dizendo boa-noite ao nosso amvel anfitrio.

Pensando, porm, que o marido achasse estranho ela ainda estar fora da cama, explicou:

- Fui ao quarto de Katerina, e parece que ela desapareceu. Sua aia est preocupada. S espero que ela esteja no jardim, admirando o cu estrelado!

- Sua sobrinha ainda no se deitou? - indagou o duque.
- Mas eu a vi sair do salo horas atrs!

- Eu tambm vi - respondeu Lucy. - Achei que ela estava cansada.

-  muito estranho! - disse o duque. - Se a srta. Darley saiu, ao voltar encontrar as portas fechadas e no poder entrar.

- Tenho certeza de que no precisamos nos preocupar com ela - disse Lucy levianamente.

- Minha sobrinha no ficaria fora de casa at esta hora interrompeu lorde Branston. - Faltam quinze para as duas! Est frio! O que ela poderia estar fazendo a esta 
hora da madrugada?

De repente, o duque se lembrou da conversa que tivera com Katerina. Ela dissera que desejava ir embora. Mas como teria se arranjado sem dinheiro? Pelo modo como 
ela falara, no tinha dinheiro algum consigo.

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Sem dar nenhuma explicao, o duque foi at o quarto de Katerina e disse a Emily, enquanto ela lhe fazia uma reverncia:

- Quer verificar se as roupas da srta. Darley esto a? Emily pareceu surpresa, mas abriu as portas do guarda-roupa.

Vendo todas as roupas penduradas, disse:

- No falta nada, Alteza. S falta o vestido que a srta. Darley usava quando desceu pra jantar.

- Esto a a capa e o casaco? - insistiu o duque.

- Tudo o que ela trouxe para Lynd est aqui.

O duque saiu do quarto e foi at o patamar, onde Lucy e o marido esperavam.

- Ela deve estar no jardim! - insistiu Lucy. - Na verdade, nunca vi nada to aborrecido! O mnimo que essa garota pode apanhar  um resfriado, e doena  o que menos 
quero no momento!

O duque nem ouviu o comentrio cido. Desceu as escadas, e, chegando ao hall, pediu ao criado encarregado do servio noturno para abrir a porta da frente, que j 
fora trancada.

O criado atendeu-o mas disse:

- Tenho certeza de que no h ningum l fora, Alteza.

- No viu a srta. Darley sair para o jardim?

- No, Alteza, ela subiu horas atrs, e a senhora russa foi ao quarto dela.

- Tem certeza disso? - perguntou o duque, franzindo a testa.

- Certeza absoluta, Alteza! A senhora russa subiu logo depois da srta. Darley, e ouvi as duas conversando.

- Obrigado, James. Pode fechar a porta. O duque subiu as escadas novamente.

Sem dar qualquer explicao a Lucy e ao marido, que continuavam no patamar, ele foi at o quarto de Anastcia e bateu na porta. Depois de alguns minutos, a criada 
da condessa, uma francesa, abriu a porta, e, ao ver o duque, fez-lhe uma reverncia.

- Quero falar com sua ama!

A criada se afastou e foi falar com Anastcia, que, usando

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um nglig provocante, estava sentada diante do espelho, com os longos cabelos negros caindo em ondas sobre os ombros.

Ela ouvira o que o duque dissera, e levantou-se para ir ao encontro dele, deixando deliberadamente o neglig entreaberto para mostrar a camisola transparente que 
lhe modelava os contornos do corpo perfeito.

- Deseja falar comigo?

Havia uma evidente insinuao em suas palavras, que o duque percebeu, mas fez questo de ignorar.

- Soube que subiu com a srta. Darley - ele disse sem rodeios. - Como esteve conversando com ela, quero saber sobre o que falaram.

O duque no tirou os olhos de Anastcia e percebeu-lhe a hesitao.

- No posso me lembrar exatamente sobre o que falamos. Conversamos sobre o que temos visto de bonito em Lynd e rimos um pouco, s isso, eu acho. Depois desci novamente, 
pois a garota queria dormir.

Parecia muito plausvel, mas o duque sabia que a condessa no dizia a verdade.

- Tem certeza de que ela ia mesmo dormir?

- Foi o que ela me disse. Por que eu deveria ter dvidas a respeito disso?

- Claro que no - concordou o duque. - Mas  estranho, pois a srta. Darley nem chegou a deitar-se e no est em seu quarto!

-  muito estranho mesmo! A tia da garota deve estar muito preocupada!

Anastcia deu uns passos e foi at Lucy, dizendo:

- Sinto muitssimo, lady Branston! Deve ser uma preocupao constante ter que ser a chaperon de uma jovem to linda e ficar o tempo todo tentando evitar que ela 
arranje problemas.

- No creio que minha sobrinha tenha arranjado problemas!
- respondeu lady Branston agressivamente. - Mas ela no est no quarto dela e, pelo que acabo de ouvir, voc foi a ltima pessoa a falar com ela.

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- Certamente eu vi a srta. Darley e falei com ela, mas ela disse que ia dormir e eu voltei para o salo.

- Tudo isto me parece muito estranho - disse lorde Branston com voz grave.

- Talvez todos vocs estejam fazendo tempestade num copo de gua - comentou Anastcia com um sorriso fascinante.
- Garotas so garotas, e, s vezes, nos deixam desesperados. Amanh vocs vero que ela vai aparecer s e salva. Pelo menos  o que espero.

Anastcia estava representando, e o duque sabia muito bem disso. Ao mesmo tempo, procurava ferir Lucy o mais que podia. Para aborrecer mais a rival, ela disse a 
lorde Branston, pondo a mo no brao dele:

- Demonstra muito carinho por sua sobrinha, preocupando-se assim com ela. Chega at a ser comovente. Mas, se a garota desapareceu, todos ns temos que ir procur-la.

A condessa falou com tanta ternura, que lorde Branston disse:

-  muito amvel, condessa, mas no vamos priv-la de seu sono.

- No, claro que no - disse Lucy secamente. - Todos ns precisamos ir para a cama, e eu certamente repreenderei Katerina pela manh, por nos ter causado tanto aborrecimento!

Sem dizer uma palavra, o duque desceu as escadas mais uma vez e pediu para o criado abrir a porta, saindo para o jardim.

No estava frio, como todos supunham. Apesar de o cu estar estrelado e a Lua estar visvel, no havia claridade suficiente para ver se havia algum a distncia.

O duque deu uma volta e foi ao jardim das rosas, pois o quarto de Katerina ficava naquela ala. Ele foi andando sobre o gramado e se aproximou da casa. Ficou ali 
de p, olhando para as janelas do quarto de Katerina, vendo as duas iluminadas pela luz de velas. As cortinas estavam abertas.

"O que ter acontecido a ela? Onde estar?", ele questionava, intrigado.

Katerina no poderia ter fugido. Ela no lhe parecera mais atemorizada com a ideia do casamento. Ao voltarem juntos da

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igreja, o duque percebera que ela era uma pessoa sensvel e bondosa, e estava convencido de que ela nutria por ele um sentimento mais forte, uma atrao que ele 
no podia explicar. Todavia, estava mais do que certo que havia algo muito forte entre ambos.

Apesar de s isso ser uma forte indicao de que Katerina no teria fugido dele, havia ainda a evidncia de que ela no partiria sem roupas e sem dinheiro.

Nesse instante, ele viu algo no cho, e abaixou-se automaticamente para peg-lo. Eram os delicados e perfumados jasmins que Katerina havia usado nos cabelos. Ele 
se lembrava bem do detalhe, pois, ao v-la, achou que o efeito daquelas flores era mais adorvel do que se ela estivesse usando jias.

Era difcil ver com to pouca claridade, mas o que tinha nas mos, no havia dvida, eram alguns dos botes de jasmins que se achavam presos na fita azul que, por 
sua vez, prendia os cabelos loiro-platinados.

Aqueles botes soltos pareciam ter sido arrancados da fita e, tudo indicava, com certa violncia. Vendo melhor as florzinhas sob uma nesga de luz, ele viu que estavam 
esmagadas.

Alguma coisa violenta acontecera a Katerina. O duque tinha certeza disso, como se algum lhe estivesse dizendo isso ao ouvido.

Era mais do que provvel que Katerina estivesse em perigo. Todavia, no havia provas para aquela certeza, que era s interior.

Ele olhou no cho  procura de pegadas. O escuro no lhe permitia ver se algum estivera com Katerina.

Enquanto voltava para a manso, o duque estava no s intrigado, mas profundamente preocupado. Indo at a porta lateral que dava para o jardim, viu que se encontrava 
aberta. Podia ser que um criado negligente no a tivesse fechado, ou ela poderia ter sido aberta pela prpria Katerina.

Isso explicava por que o criado do hall no a vira sair de casa. O duque empurrou a porta e foi investigar, para ver se encontrava alguma pista. Teria Katerina combinado 
encontrar-se

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com algum no jardim? Talvez fosse por isso que tivesse dado a desculpa de ir para a cama mais cedo.

Se algum homem a tivesse abraado e acariciado, poderia ter estragado o arranjo de flores da cabea dela. Outra hiptese era a de que ela tivesse lutado com algum 
e que as flores tivessem cado de seu cabelo.

O duque entrou em casa, deixando a porta lateral aberta, caso Katerina voltasse mais tarde e quisesse entrar.

Ao fazer isso, ele sabia que no desejava perder aquela criatura adorvel que, para ele, j era to especial.

No sabia o que poderia ter acontecido, porm, fosse qual fosse a razo de seu desaparecimento, ele a encontraria.

Ele a traria de volta para Lynd, e para si!

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CAPITULO VII

No tendo conseguido dormir, o duque se levantou bem cedo. Sem esperar pelo criado de quarto, vestiu sozinho o traje de montaria e desceu as escadas.

Os criados, que iniciavam suas tarefas dirias, olhavam surpresos para o amo.

As criadas fizeram-lhe uma reverncia e os criados se curvaram.

Imerso em seus pensamentos, o duque passou por eles, saiu pela porta da frente, deu uma volta e foi para os estbulos.

Os cavalarios comeavam o trabalho matutino de fazer a limpeza geral das baias. Num impulso, o duque fez a pergunta que o estava intrigando:

- Qual de vocs acompanhou a condessa de Calverton no passeio ontem  tarde?

Surpreso, um dos rapazes respondeu:

- Fui eu, Alteza.

Quem havia respondido era um dos rapazes mais velhos, chamado Ramon.

O duque olhou para Ramon e lembrou-se de ter ouvido algum comentrio sobre o fato de ele ser filho de um cigano e de uma das jovens da vila. O cigano havia namorado 
essa jovem e partira, deixando-a grvida. A criana fora criada pelos avs, que trabalhavam nas terras do duque, e Ramon, ainda muito jovem, viera trabalhar no estbulo.

Agora ele j era um homem feito, e sempre se revelara um excelente empregado.

O criado-chefe sempre o elogiava, dizendo que ele parecia

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ter um dom especial para cuidar dos animais, talento esse que s os ciganos possuem.

O duque se lembrou tambm de que Anastcia havia sido a ltima a voltar para a manso na tarde anterior. As coisas pareciam se juntar. Ele perguntou a Ramon:

- A condessa de Calverton parou em algum lugar ao voltar da torre de observao?

- Sim, Alteza. Ela quis parar no acampamento dos ciganos.

- Por qu?

A pergunta foi direta, mas Ramon permaneceu imperturbvel e respondeu:

- Creio que a condessa queria que uma cigana lesse sua sorte.

- Ento ela conversou com alguns dos ciganos sozinha?

- Sim, Alteza.

O duque ia continuar suas perguntas quando viu que um dos cavalarios vinha puxando um cavalo.

- Aonde vai levar este animal?

- O conde Calverton deseja dar um passeio antes de voltar a Londres.

O duque raciocinou rapidamente. Esse seu raciocnio havia feito dele, no passado, um soldado bem-sucedido.

- Leve o Conqueror para a frente da casa em meia hora disse ele a Ramon - e escolha para voc mesmo um bom cavalo.

Ramon olhou para o amo com um olhar indagador, mas o duque se virou e caminhou para a manso.

Antes de tomar o caf da manh, foi  biblioteca. Sentou-se  escrivaninha com uma expresso assustadora no rosto. S saiu da biblioteca quando teve certeza de que 
o caf estava sendo servido na copa.

Muitos de seus hspedes eram madrugadores como ele, e os criados comeavam a servir o breakfast por volta das sete da manh, continuando o servio at bem mais tarde.

Ao entrar na copa, iluminada pelos raios do sol da manh, o duque viu que ainda estava vazia.

Cinco minutos depois, o conde de Calverton entrou depressa na copa.

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- Bom-dia, Lyndbrooke. Eu imaginei que j estivesse mesmo aqui.

- Levantou cedo, Calverton!

- Eu queria montar um de seus excelentes cavalos antes de regressar a Londres. Espero que no se importe.

- Tenho grande prazer em saber que os aprecia.

O conde se serviu de um dos pratos quentes que se achavam em um aparador e, sentando-se  mesa, disse:

- Foram dias maravilhosos, e espero retribuir sua hospitalidade num futuro bem prximo.

O duque no respondeu, e o conde continuou:

- Lamento ter interrompido sua conversa com aquela encantadora sobrinha de Branston. Como eu disse a Anastcia, ao ver o quanto aquela jovem  adorvel, eu no ficaria 
surpreso em saber que o nosso mais esquivo duque pode perder a liberdade!

Ele riu das prprias palavras, e o duque, afastando a cadeira, disse, cortando o assunto:

- Espero que aprecie seu passeio matinal, Calverton! Seu cavalo o espera em frente  casa.  um belo animal, mas muito esperto!

- Gosto de cavalos assim!

O duque se afastou e foi depressa, com seu ar majestoso, para o outro andar.

Ao chegar ao patamar onde ficavam seu quarto e o de Anastcia, ele olhou ao redor. Como ainda era muito cedo, tudo estava quieto e certamente nenhuma das aias havia 
sido chamada.

Ele abriu a porta do quarto de Anastcia, onde, como esperava, tudo estava escuro. Trancando a porta a chave, ele atravessou o quarto e foi at uma das janelas para 
abrir as cortinas. Com a claridade do sol, Anastcia acordou. Ela ia ordenar que fechassem as cortinas, quando viu o duque diante de si. Incrdula, ela piscou diversas 
vezes, depois exclamou:

- Tristram! O que faz aqui?

O duque caminhou at a cama e quando Anastcia se sentou, ficando reclinada contra os travesseiros, ele se sentou na beirada. Havia indagao no olhar da condessa.

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- Quero que me diga - comeou a dizer o duque vagarosa, mas firmemente - quanto pagou para os ciganos raptarem Katerina e para onde a levaram?

A pergunta foi to inesperada que Anastcia ficou parada, sem desviar os olhos do duque. Seus clios tremiam. Ele pde perceber o rubor que tingiu a pele de magnlia, 
mas a condessa disse:

- No sei do que est falando.

- Dou-lhe exatamente um minuto para dizer o que quero saber - ameaou o duque. - Se no me atender, arranco a informao a meu modo. E no estou brincando.

Anastcia deu um pequeno grito de horror.

- Voc est louco! No tem o direito de falar assim comigo! V embora!

O duque ergueu as mos. Antes que Anastcia pudesse fazer qualquer gesto para se defender, ele agarrou-lhe o longo pescoo e disse calmamente:

- Voc mesma j me disse que gostava quando eu era brutal. Bem, agora pretendo ser mesmo brutal, muito brutal.

Ela o olhava com horror, mas o duque prosseguiu:

- No pense que s vou machuc-la. Se me irritar, Anastsia, vou estrangular voc! - A voz dele tornou-se grave e aterradora. - No a matarei. Vou deixar seus olhos 
ficarem esbugalhados, saltados; seu crebro no receber oxigenao, e voc nunca mais se recuperar. Jamais voltar a ser uma pessoa normal.

Anastcia soltou um gemido de horror. Com a voz espremida na garganta, conseguiu dizer:

- Como pode me dizer essas coisas? Entre tantas pessoas neste mundo, como pode justamente voc ser to cruel?

- Cruel?  voc quem est sendo cruel! Onde est ela?

Ele ia apertando as mos mais e mais enquanto falava. Embora Anastcia tentasse afast-las, os dedos do duque pareciam de ao. Ela comeou a tossir e a ficar asfixiada.

- Onde est ela? - repetiu o duque, soltando um pouco as mos para que ela pudesse falar.

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- Eu-eu n-o sei!

As palavras saram com dificuldade.

Mais uma vez as mos do duque pareciam um torniquete, e ele viu o terror nos olhos da condessa.

- Vamos! Diga logo! - ordenou, implacvel.

Ele afrouxou as mos novamente e Anastcia ficou ofegante, lutando por um pouco de ar, cada contra os travesseiros.

O duque desceu as escadas correndo, e, com a mesma pressa, atravessou o hall. Ramon esperava por ele, segurando Conqueror, um magnfico garanho negro que h um 
ano o duque montava regularmente. Ao lado de Conqueror estava Juno, um alazo to veloz quanto o garanho negro.

O duque saltou na sela, e, enquanto Ramon montava, ele disse:

- Nossa viagem  urgente e da maior importncia. Voc vai me guiar pelas trilhas secretas que os ciganos seguem para chegar a Londres.

Por um momento, Ramon olhou atnito para o duque, mas este j tocava Conqueror e cavalgava em direo  pista de corrida onde os ciganos haviam acampado. Ramon seguiu-o, 
pensando consigo mesmo que jamais vira o amo to zangado.

Katerina estava muito assustada. A garota cigana que o homem chamava de Lilyi trouxera-lhe comida.

Katerina havia pedido tambm gua para lavar-se Lilyi havia voltado trazendo uma bacia e uma toalha limpa.

Depois de lavar o rosto e as mos, a jovem olhou com tristeza para seu vestido novo, todo amarrotado. As flores do cabelo estavam esmagadas, pois dormia sobre elas. 
Havia tambm poucas flores das muitas que Emily arranjara cuidadosamente em seus cabelos na noite anterior. Katerina pegou as ptalas e deixou-as em um canto da 
carroa.

Quando Lilyi voltou, Katerina sups que os ciganos iam continuar a viagem, a julgar pelos sons que chegavam at ela.

- Por favor... fale comigo! - ela suplicou a Lilyi. -

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Estou com muito medo... No sei para onde me levam, nem por que estou aqui?

A voz dela soou suave e musical. Era assim que ela falava com crianas ou com qualquer pessoa que quisesse persuadir a tornar-se amiga.

Lilyi era uma garota linda, de cabelos e olhos negros. Ela olhou apreensiva para Katerina, e disse:

- Mandaram no falar nada.

- Isso no  delicado. Somos duas garotas, estamos juntas, por que no podemos conversar?

- Muito bonito.. Voc linda! - disse Lilyi, que no tirava os olhos do vestido de Katerina.

- Voc tambm  linda - disse Katerina com calor na voz. Ela sentou-se em uma das camas e disse, em voz baixa, para
que ningum mais ouvisse:

- Para onde esto me levando? Lilyi pareceu amedrontada.

- No poder falar. Proibido falar. Lady dar cinquenta libras para levar voc.

- Cinquenta libras?

Katerina pensou que Anastcia devia mesmo odi-la, para dar todo aquele dinheiro para livrar-se dela e ter o duque s para si.

- Para onde estamos indo?

- No dizer. Proibido. Ns querer cinquenta libras para carroa nova, cavalo novo.

- Se me levarem de volta - disse Katerina com voz calma e suave -, meu tio pagar cem libras.

Lilyi arregalou os olhos.

- No! No! Se voltar, polcia pega meu pai. Quando vender voc ganha dez, quinze libras.

Arrependida por ter falado demais, Lilyi saiu da carroa e trancou a porta..

Alguns minutos mais tarde, os cavalos eram postos nos varais e a carroa punha-se em movimento.

Mais uma vez os ciganos partiam, levando-a para seu futuro sombrio e desconhecido. Aquilo parecia um pesadelo.

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Olhando pela janela, ela viu que a maior parte da viagem era feita no meio de bosques e matas. s vezes seguiam por estradas mal cuidadas, que eram pouco mais que 
uma trilha estreita, e terras incultas ou desertas, onde no se via um habitante.

Katerina j ouvira dizer que os ciganos tinham mesmo o costume de viajar por trilhas secretas, s deles conhecidas, e podiam andar por todo o pas sem serem notados.

Ficando cada vez mais desesperada, ela pensou que, mesmo que o duque viesse atrs dela, o que no era provvel, seria impossvel encontr-la.

E como ela queria que ele viesse! S ele era esperto e expedito o bastante para evitar que ela fosse vendida ou que tivesse qualquer outro destino aterrador.

Bem no fundo de sua mente havia a lembrana nebulosa do que acontecera quando seus pais estavam em Algirs. Seu pai ficara revoltado ao saber que jovens inglesas 
eram mandadas em navios para os mercados de escravas, no Oriente, onde eram vendidas aos rabes, em leiles.

Ela no conseguira compreender por que aquelas jovens precisavam ser vendidas como escravas, se havia tantas pessoas mendigando trabalho.

Por que haveriam de querer jovens inglesas? No conhecia a resposta para essa pergunta, e, ao mesmo tempo, a temia.

O que lhe estaria reservado? Algum iria compr-la e obrig-la a fazer algum tipo de servio?

No momento, tinha apenas que esperar e buscar conforto na orao. Sentou-se na cama e comeou a fazer uma prece fervorosa aos pais, pedindo-lhes que ajudassem o 
duque a encontr-la.

No poderia contar com o tio, que, mesmo que estivesse preocupado com ela, no teria expediente para ir procur-la. A tia s queria se ver livre da sobrinha, que 
considerava um estorvo.

Portanto, s restava o duque. Ao pensar nele, to forte, atltico e responsvel, Katerina rezou para ele estar interessado em encontr-la.

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"Mande-o, papai... mande-o vir buscar-me! Eu o amo, mesmo que ele no se case comigo, mesmo que consiga evitar nosso casamento... Sempre o amarei... Hei de am-lo 
eternamente!"

Ela no tinha dvidas de que, como sua me, amaria apenas um homem na vida.

Desde que vira Michael Darley, Elizabeth jamais tivera olhos para outro homem. Mesmo que algum Adnis se ajoelhasse aos ps dela, era incapaz de lhe dar ateno.

O amor de Elizabeth pelo marido era to grande que a expresso de seu rosto era de enlevo sempre que estava ao lado dele. O amor tornava-a ainda mais linda, pela 
radiosidade que imprimia a sua pele, pela luminosidade do olhar.

Katerina sabia que o pai sentia o mesmo pela esposa. Todos viviam muito felizes, e era esse tipo de amor que Katerina desejava encontrar um dia - o verdadeiro amor, 
que  a maior felicidade do mundo.

" esse amor que sinto pelo duque, mame", ela dizia, uma prece silenciosa. "Como ele no me ama, nosso casamento jamais ser como o seu e o de papai."

Katerina sentiu ento uma terrvel angstia, e deu um grito abafado, como se fosse um animalzinho ferido. Ela seria vendida para alguma pessoa desconhecida, e nunca 
mais veria o duque. Pelo menos ele estaria livre e no seria forado a se casar com uma jovem que se tornaria um aborrecimento em sua vida.

Ela cobriu o rosto com as mos. As lgrimas rolavam, abundantes, e Katerina pensava que, se no fosse o amor da condessa pelo duque, nada disso teria acontecido.

Mesmo que o duque no estivesse interessado em Anastcia, certamente haveria dezenas de lindas e sedutoras mulheres para ocupar o lugar da bela e extica condessa.

Os cavalos seguiam, puxando a carroa, lenta e penosamente.

Mais tarde a carroa parou, e Katerina percebeu que os cavalos eram tirados dos varais. Os ciganos iriam, certamente, fazer a refeio do meio-dia.

J haviam viajado muitas milhas.

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Mesmo se em Lynd tivessem notado o desaparecimento de Katerina, ela achava que no poderiam ter noo de onde ela pudesse estar e por que caminho procur-la.

Alm disso, o duque talvez pensasse que ela tinha fugido. Mas, ao mesmo tempo, sendo inteligente, ele iria verificar que todas as coisas dela estavam em Lynd.

Outro ponto que ele haveria de considerar era que ela no iria viajar para outro pas vestindo um finssimo vestido de noite, branco e todo enfeitado de miostis. 
O mnimo que uma pessoa sensata faria, se quisesse fugir, seria usar roupas simples, para chamar a menor ateno possvel.

"Oh, faa-o encontrar-me, meu Deus!", ela implorava.

Nesse momento, ela ouviu cascos de cavalos que se aproximavam. Com o corao aos saltos, ela desejou que fosse o duque.

Levantou-se e ficou junto  porta, encostando bem o ouvido nela para saber o que se passava l fora.

Ento ouviu uma voz. No havia como se enganar. Ela conhecia aquela voz, que em tom autoritrio e categrico perguntou:

- Onde est o chefe desta famlia? Quero falar com ele. Katerina deu um grito de alegria e comeou a bater na porta

com fora, gritando:

- Estou aqui! Estou aqui! Por favor, salve-me!

O duque seguia ansioso ao lado de Ramon, que o guiava por meio dos bosques e por regies incultas e desertas. s vezes viam marcas de rodas que podiam ser das carroas 
dos ciganos.

Todavia, h meses no havia chuvas, e era difcil distinguir uma pista que fosse, na verdade, valiosa.

Os dois seguiam a galope, e o duque s esperava que Ramon o estivesse guiando no caminho certo.

Todavia, se no conseguissem encontrar Katerine antes de chegarem a Londres, assim que l estivesse iria mobilizar toda a polcia, e no descansaria enquanto no 
a encontrasse.

Os cavalos estavam suados e necessitavam urgentemente de gua, assim como os cavaleiros.

Subitamente, Ramon apontou para algo ao longe. No meio das

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rvores, ainda bem distante dali, o duque pde ver o topo arredondado de uma carroa.

O duque se controlou para no ficar exultante sem antes ter certeza de que aqueles eram mesmo os romanis que haviam raptado Katerina. Costumava haver muitos ciganos 
no pas naquela poca do ano. Como ele no conhecia os que haviam estado em Lynd, aqueles poderiam at ser de outro cl.

Ele se aproximou e parou o cavalo. Pela expresso de Ramon, viu que haviam encontrado o grupo dos ciganos raptores.

Assim que perguntou pelo chefe deles, ouviu os gritos de Katerina.

Dirigiu o cavalo at a carroa de onde vinham os gritos. Os varais estavam apoiados no cho. Depois de desmontar, ele puxou o trinco da porta. Assim que o fez, Katerina 
saiu e ficou por um instante parada na pequena plataforma onde ficava o banco do cocheiro, olhando para o duque, com os olhos radiantes de felicidade.

Ento, convencida de que aquele homem maravilhoso que ali estava era mesmo o duque, ela deu um grito, atirou-se em seus braos e, escondendo o rosto no peito dele, 
disse, de modo desconexo:

- Voc veio! Eu rezei... rezei... pedi a meus pais que o mandassem... Voc veio... est aqui!

- Felizmente a encontrei, e isto jamais se repetir. Jamais! Como resultado de toda a tenso angstia e pavor que vivera naquelas horas, Katerina irrompeu em lgrimas. 
Todo o seu corpo tremia, e as lgrimas que lhe desciam pelo rosto molhavam o peito do duque.

Ele estava perdidamente apaixonado por aquela linda e adorvel criatura, como jamais estivera por mulher alguma.

Naquela noite, sem conseguir conciliar o sono, querendo saber o que acontecera com Katerina, o duque descobriu que estava profundamente apaixonado por ela.

Fora seu amor que o levara at Anastcia e a fizera dizer-lhe a verdade sobre o desaparecimento de Katerina.

S agora, porm, ele admitia que estava apaixonado, e no

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duvidava que o sentimento que nutria por aquela jovem que tinha em seus braos era algo puro e verdadeiro.

Nem quando cavalgava, desesperado, temendo no encontr-la, tivera plena conscincia de que o que sentia era amor.

Finalmente, descobria que ela era tudo o que ele mais desejava, era uma coisa to maravilhosa e to perfeita que nem pensava ser possvel encontrar.

Instintivamente, ele apertou contra o seu o corpo delicado e trmulo de Katerina. Ele iria proteg-la, cuidar dela, am-la, ador-la para sempre. Nunca mais haveria 
de v-la infeliz ou amedrontada.

- Est tudo bem - ele disse, confortando-a e acariciando-lhe os cabelos. - Estou aqui, e ningum poder mago-la.

Ao dizer isso, pensou com repugnncia no bordel onde Anastcia fora para tratar com os ciganos o rapto e a venda de Katerina. Ele decidiu que nunca lhe falaria sobre 
algo to deprimente.

Ao ouvir a voz do duque, Katerina controlou-se e, mais calma, parou de chorar.

Ainda abraado a ela, o duque olhou ao redor. Ele queria falar com os ciganos, mas j no havia mais nenhum deles por ali.

Trs carroas, alguns cavalos que procuravam um pouco de relva no meio da vegetao rasteira no bosque, uma fogueira com as brasas j cobertas de cinzas e alguns 
utenslios foi tudo o que viu. No havia sinal de pessoas, a no ser eles trs.

O duque olhou para Ramon e este aproximou-se, segurando os dois cavalos. Mesmo sem o duque fazer qualquer pergunta, Ramon explicou:

- Os romanis sabem que agiram mal, Alteza, e trataram de fugir. Eles no voltaro at que tenhamos ido embora.

- Quanto antes sairmos daqui, melhor! - disse o duque. Ele olhou para Katerina e disse a Ramon:

- A srta. Darley ir montada na frente de minha sela. Arranje um cobertor para ela viajar de forma mais confortvel e um xale para ela no sentir frio.

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Ele tirou um soberano de seu colete e atirou-o a Ramon, que o apanhou com destreza.

Ramon deixou os cavalos soltos, pois eles no iriam fugir, subiu na carroa onde Katerina estivera e pegou um dos cobertores. Depois foi at a outra carroa, em 
cujo interior havia uma poro de artigos amontoados: cestas de vime, prendedores de roupa e outros objetos que as mulheres ciganas faziam e vendiam de porta em 
porta nas cidades e vilas.

Ramon pegou um xale branco tricotado, que no era novo, mas havia sido lavado e estava muito limpo. Ele entregou o xale para o duque e foi pr o cobertor no lombo 
de Conqueror.

O duque arrumou o xale nos ombros de Katerina, e esta, olhando para ele, murmurou:

- Pensei que nunca fosse me encontrar.

- Eu a teria encontrado nem que a levassem para a Lua. Como j tivemos dramas demais, vou lev-la para um lugar seguro e tomar providncias para que nada parecido 
lhe acontea.

Ela olhou para o duque e este lhe disse, com um sorriso:

- Deixe tudo por minha conta.

- Tenho plena confiana de que far o melhor por mim ela murmurou, com um leve tremor na voz.

Seus clios estavam midos pelas lgrimas, mas o brilho de seus olhos era intenso. O duque morria de vontade de beij-la, mas achou que o momento no era apropriado.

Ele ergueu-a e sentou-a no lombo de Conqueror, montando depois com cuidado e segurando-a com o brao esquerdo, enquanto a mo direita segurava as rdeas.

Os trs puseram-se em marcha.

-  mesmo verdade que est aqui? No estou sonhando?

- Estou aqui, sim - assegurou o duque. - Agora, quero que esquea todo esse horror e pense apenas que logo chegaremos a Londres.

- Vamos para Londres?

- Londres fica mais perto daqui do que Lynd. Tenho alguns planos que tornaro tudo mais fcil para quando voltarmos a Lynd. S mais tarde quero explicar-lhe coisas 
que vai odiar ouvir.

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Katerina estremeceu. Ela pensou em Anastcia. Seria muito embaraoso ter que v-la novamente.

Havia tambm tia Lucy, que devia estar muito zangada com ela.

O melhor era no pensar em coisas desagradveis. Com naturalidade, ela encostou a cabea no peito do duque. Como Perseu, ele viera salv-la. Nada mais havia a temer.

A viagem at a manso de Park Lane no foi muito demorada.

Os criados do duque deviam estar todos surpresos, pois no o esperavam, mas s demonstraram sua euforia por ter o amo em casa.

O duque ordenou que a governanta levasse Katerina para um dos melhores quartos.

Apesar de no querer ficar longe do duque, Katerina seguiu a governanta, que a conduziu para o outro andar.

- Descanse um pouco, depois conversaremos - recomendou-lhe o duque.

A governanta, muito discreta, no fez pergunta alguma. Apenas fez com a boca um som de desaprovao ao ver o estado em que se achava o finssimo vestido daquela 
jovem recm-chegada.

Como num passe de mgica, ela providenciou uma linda camisola e explicou que havia sido deixada por uma hspede.

- Eu no tinha mesmo mais nada para usar do que esta roupa - disse Katerina.

Quando Katerina j estava deitada confortavelmente, trouxeram-lhe o que comer. Ela no ficou surpresa ao ver que sentia fome. S lamentou no ter a companhia do 
duque.

Mas no podia reclamar. Graas a Deus estava naquela linda casa, sentia-se protegida e segura.

"Obrigada, meu Deus!", ela disse mentalmente, com fervor.

Tivera muita sorte por haver entre os cavalarios um que conhecia os costumes dos ciganos e suas rotas secretas.

Algumas horas se passaram sem que Katerina tivesse notcias do duque.

Afinal, mais tarde, a porta se abriu e ele entrou. Vestia-se

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com muita elegncia. No podia haver homem mais atraente ou mais viril.

Ele se aproximou e, em vez de sentar-se na poltrona que havia no quarto, sentou-se na beirada da cama e, tomando a mo de Katerina entre as suas, disse suavemente:

- Voc est bem? No a machucaram?

- Agora estou bem. Mas fiquei aterrorizada... A garota cigana que cuidava de mim disse que eu ia ser vendida quando chegssemos a Londres.

- Quero que esquea tudo o que aconteceu - disse o duque, apertando a mo dela.

- Vou tentar. Mas tive tanto medo que pensasse que eu havia fugido e nem se preocupasse em vir me procurar...

- Cheguei mesmo a pensar nisso, mas fui verificar suas roupas, e como vi que no levara nada com voc, deduzi que no fugira.

Katerina deu um grito de alegria.

- Eu sabia que voc descobriria isso! Mas como soube que eu havia sido raptada?

- Vi no jardim algumas das flores que voc havia usado nos cabelos. Percebi que haviam sido arrancadas com violncia.

- Ah, voc  to inteligente, to observador!

Achando que Katerina devia saber de tudo, o duque contoulhe como havia descoberto que Anastcia havia conversado com os ciganos no dia anterior e como a obrigara 
a contar-lhe toda a verdade sobre o desaparecimento de Katerina.

- Ento ela lhe contou a verdade? - perguntou Katerina, incrdula.

O duque sabia que, sendo to inteligente, Katerina imaginaria que ele tivera que usar de certos recursos de persuaso, e admitiu isso.

- Mas no vamos mais falar nesse assunto. Quero que fique a par dos planos que temos para ns dois. S espero que concorde com eles.

- Planos?

Havia ansiedade nos olhos de Katerina. Ela temia que talvez

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o duque lhe desse o dinheiro para ela ir para outro pas. Estando em Londres, isso era mais fcil ainda.

O duque percebeu a preocupao dela e disse com ternura:

- Querida, eu a amo!

- Voc... me ama?

- Amo voc! E o que sofri nestas ltimas horas me fez perceber que no posso perd-la novamente.

Ao dizer isso, ele se inclinou. Antes que Katerina percebesse o que acontecia, ele a beijou.

O duque jamais havia beijado algum daquela forma. Nunca experimentara nada to maravilhoso.

Ele foi delicado, todavia Katerina sentiu que havia fogo nos lbios dele.  medida que a presso dos lbios dele foi se tornando maior e os beijos mais possessivos, 
ela sentia que uma emoo incrvel, como uma luz, se espalhava por todo o seu corpo. Aquela emoo era tudo o que ela buscava e pensava que jamais viria a encontrar.

Os lbios de Katerina eram doces, suaves e inocentes, e ela se entregava toda a ele.

Ele envouveu-a nos braos e apertou-a de tal forma junto de si, que quase a impedia de respirar.

Os beijos daquele homem a transportaram ao cu, fazendo-a esquecer toda a mgoa e preocupao.

Depois de um longo tempo, o duque ergueu a cabea.

- Como pode despertar em mim tais emoes? Eu nunca pude imaginar que o amor fosse to maravilhoso!

- Sente tanto amor por mim?

- juro que nunca senti por outra mulher o que sinto por voc. Na verdade, nunca amei antes.

O duque estava sendo sincero. Ele amara Anastcia com paixo, de modo selvagem, como um homem ama pela primeira vez. Agora compreendia que aquele sentimento no 
era, na realidade, amor; era apenas atrao fsica, que o tempo apaga e destri. O que sentia por Anastcia era desejo, o fogo da paixo.

Katerina, entretanto, inspirava-lhe um sentimento muito diferente. Por ser muito jovem e inocente, intocada, ela era como

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uma flor, e devia ser tratada com carinho e delicadeza, para que jamais, inadvertidamente, fosse magoada.

Ela era a mulher perfeita, que reunia todas as qualidades para se tornar a duquesa de Lyndbrooke, o adorno perfeito que faltava em Lynd.

Alm da beleza, Katerina tinha bondade. Comparada a ela, todas as outras mulheres com que Tristram se envolvera podiam ser consideradas inferiores.

Agora ele conhecia o verdadeiro amor.

Buscara esse amor inconscientemente, e fora isso o que o impedira de se casar. Era como se ele buscasse o "Velocino de Ouro" e agora o encontrasse.

Em voz alta, ele disse:

- Querida, como amo voc! Quero sair e gritar para o mundo que a amo, at que acredite em mim.

- Acredito que me ama. Eu  que, ao descobrir meu amor por voc, tive medo que nunca me amasse por eu ser to insignificante... to sem importncia, ao lado de seus 
amigos.

- Voc  mesmo muito diferente do que chama de "meus amigos".  por isso que amo voc. Porque voc  especial. Como ns dois estivemos no Oriente, ambos sabemos 
que o amor que nutrimos um pelo outro  sem idade,  eterno.

Havia nos olhos de Katerina um brilho raro, e ele continuou:

- Acredito que nos encontramos numa outra vida, e na vida presente nossos coraes ansiavam pelo nosso reencontro. Somos parte um do outro e jamais nos separaremos.

Katerina no cabia em si de felicidade. Numa exploso de alegria, ela disse:

-  tudo o que quero que sinta por mim, e como  exatamente o que sinto por voc, s desejo estar  sua altura.

- Voc  perfeita. Para mim voc  a Lua, as estrelas, o Sol... o mundo todo! - disse o duque com paixo.

Ele a abraou e beijou novamente.

Foi um beijo apaixonado, impetuoso, ardente. Ele parecia querer no somente certificar-se de que ela lhe pertencia, mas

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tambm queria conquist-la, torn-la cativa de seu amor, para que no pensasse em mais ningum, s nele. Somente quando j estava quase sem flego, Tristam disse:

- E agora, minha querida, meu corao, devemos fazer nossos planos, mas, quando me olha desse jeito, minha nica vontade  beij-la,  tom-la nos braos... As palavras 
perdem a importncia.

- Tambm desejo ficar em seus braos... Anseio por seus beijos! Mas tambm quero saber quais so seus planos. Confesso que tive receio de ouvi-los.

- No h o que temer. Sei que voc deseja exatamente o que eu desejo, isto , que nos casemos imediatamente.

- Casar?

- Sua tia exultou, pensando que havia armado uma cilada para que nos casssemos - ele disse, com uma nota divertida na voz. - Mas vamos nos casar porque descobrimos 
que no podemos viver separados. Sugiro que nos casemos j, sem a presena de nenhum de nossos parentes ou amigos.

Katerina ps os braos ao redor do pescoo dele.

- Mas  uma ideia maravilhosa! Estarmos a ss... com Deus! Sei que meus pais estaro conosco tambm.

- Esperava que concordasse comigo. J mandei providenciar uma licena especial de casamento. Deixaremos sua tia toda alvoroada, querendo enfeitar a igreja de Lynd 
para o nosso casamento, e vamos nos casar na igreja bem perto daqui.

- S voc e eu?

- S ns dois.

Ela olhou para ele com gratido e ofereceu-lhe os lbios, que o duque beijou suavemente, dizendo em seguida:

- Ento, minha adorada, antes de algum perceber o que est acontecendo, vamos sair daqui. Voc no queria fugir? Pois vai fazer isso comigo. Achei uma tima ideia 
ficarmos a ss. A meu lado no ter medo.

No havia necessidade de palavras.

Katerina estava radiosa. Era como se em seu interior ardessem

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milhares de velas. O duque olhou-a, e, vendo tanta luz no olhar dela, emudeceu.

Depois de algum tempo, Katerina disse:

- Suponho que tenha notado que no tenho roupas. At esta camisola foi emprestada.

Ele deu uma risada sonora.

- J mandei buscar suas roupas na casa de seu tio. Tambm j tomei providncias para que mandem as suas roupas que ficaram em Lynd.

-  tudo to incrvel!

- Prometo-lhe uma lua-de-mel maravilhosa.

- Para onde iremos?

- Vamos fazer uma longa viagem por lugares aonde voc costumava ir com seus pais, s que viajaremos agora com todo o conforto.

Ao v-la to entusiasmada, Tristram ficou exultante, e continuou com as surpresas:

- Pensei em partirmos amanh cedo para Paris, onde resolvi comprar alguns vestidos para o seu enxoval e os presentes que quero lhe oferecer como minha esposa. Depois 
seguiremos para Marselha, onde tomaremos o meu iate. Creio que voc vai adorar conhecer a Tunsia, onde eu nunca estive e creio que voc tambm no.

Katerina apenas sorria de felicidade, concordando com tudo.

- Depois desceremos e atravessaremos o canal de Suez. Como o Oriente nos atrai, poderemos rever muitos lugares e aprender coisas que nos ajudaro quando voltarmos 
ao nosso pas.

- Talvez no deva afastar-se de seus deveres por minha causa. Afinal, voc  uma pessoa to importante!

- Desempenharei meus deveres muito melhor quando voltarmos. Voc me ajudar, minha adorada. Ser minha permanente fonte de inspirao. Sei que me estimular a ser 
um homem muito melhor. Serei mais compreensivo com as pessoas que dependem de mim e servirei melhor a Sua Majestade e ao nosso pas,

- Sempre sonhei para voc, desde que o vi, um destino

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nobre e elevado. Sinto no poder ajud-lo a ser um rei, pois tenho certeza de que governaria seu povo com justia e tornaria seu pas o mais feliz que pudesse existir 
na Terra. O duque riu.

- Mas j temos o nosso pas. Em minhas terras reinar o amor. Vamos ajudar todos aqueles que procurarem nosso auxlio,  faremos todos to felizes como ns mesmos.

- Farei tudo o que puder para torn-lo o homem mais feliz que possa existir. Mas voc deve me ajudar a no cometer erros.

- Nada ser mais fcil. S o que tem a fazer  me amar, tudo ser perfeito.

Ele mesmo estranhou estar falando daquele modo, mas o que dizia era ditado pelo corao.

Sabia que, sendo uma pessoa de profunda formao, espiritual, muito perceptiva, com um instinto muito desenvolvido para o bem, Katerina brilharia como uma estrela 
sendo a duquesa de Lyndbrooke.

E ele a seguiria pela vida afora.

Katerina, to doce, to suave, to pura e adorvel, no s de alma, mas tambm de corao, dentro de poucas horas iria tornar-se sua esposa.

Ele beijou-a at que o quarto pareceu girar ao redor de ambos. Katerina respondia com ardor  chama que ardia impetuosa e ardente em seu peito. Ensinar quela criatura 
adorvel as alegrias e as delcias do amor ia ser a coisa mais excitante de sua vida.

Com grande esforo, ele disse:

- Preciso deix-la agora, minha adorada noivinha. Suas roupas logo chegaro, e quero que esteja linda, adorvel para o nosso casamento.

- Promete que no ficar desapontado comigo?

- Isso  impossvel! Voc  minha!  perfeita! Adoro, voc! Amo voc!

- Tambm o amo! Adoro voc! Como poderei agradecer a Deus o suficiente por nos encontrarmos?

- Temos esta vida e toda a eternidade para fazermos isso disse o duque suavemente.

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QUEM  BARBARA CARTLAND?

As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de 350 milhes de livros em todo o mundo.. Numa poca em que a literatura d muita importncia aos aspectos 
mais superficiais do sexo, o pblico se deixou conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais. E ficou fascinado pela maneira como constri 
suas tramas, em cenrios que vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso 
das reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e teatrloga. Mas Barbara 
Cartland se interessa tanto pelos valores do passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por 
sua luta em defesa de melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e  presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.
